“A Fotografia e o Presente” DAVID CAMPANY – UNSEEN Photo Fair Amsterdam

Posted by on Oct 17, 2017 in EVENTOS, EXPOSIÇÕES, FEIRAS, FESTIVAIS, FOTOGRAFIA | No Comments

 

Mai uma vez, o mês de setembro terminou, em Amsterdã, na Holanda com a Unseen Photo Fair. Trata-se de uma charmosa feira de fotografia, cuja atmosfera é muito mais de festival e de festa, onde todos que se relacionam com o médium participam seja como público ou como artista, galeria, editor, patrocinador, colecionador, impressor, marchand, admirador, etc. Mas, de fato, a 6a. edição da feira encerrou-se em meio às comemorações de enormes vendas, seja para colecionadores particulares ou para grandes instituições e museus, tendo lugar também um leilão para “jovens” colecionadores, dirigido àqueles que iniciam sua coleção de fotografias.

Veja nossas fotos do evento e leia a seguir o texto de David Campany, escrito especialmente para esta edição da feira e publicado na UNSEEN Magazine Issue #4.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-24© Neyde Lantyer (Sylvie Bonnot)

 

A FOTOGRAFIA E O PRESENTE _David Campany

Fui convidado a escrever algo sobre a fotografia em 2017. Sobre o “estado atual do médium fotográfico”, para ser preciso. Definir o seu “agora’, ou mesmo a sua “novidade”, faz parte da forma como a fotografia tem sido pensada quase que desde os seus primórdios, e por uma boa razão. Ela muda. Mas eu sinto que existe um sentimento crescente de suspeita sobre a idéia de que algo tão amplo e variado como a fotografia possua um estado atual definível. Suspeita de que a dinâmica da tecnologia, do dinheiro e da moda muito frequentemente dita o que deve ser significativo. Suspeita de que a ênfase no agora confunda tanto o que é, de fato, mais fascinante sobre fotografia.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-01© Neyde Lantyer  (Juno Calypso)

SEMPRE, PARA SEMPRE, AGORA

Isso não é para sugerir que a fotografia não tem “estado atual”. Longe disso. Se você vê fotografia ou está envolvido com um projeto fotográfico – seja um livro, revista, exposição ou website – e a fotografia significa algo para você, então ela é contemporânea. Não importa se foi feita em 1839, 1967 ou na semana passada. A medida que uma imagem lhe envolve é a medida da sua contemporaneidade. Isso pode parecer uma ideia contra-intuitiva, especialmente com relação à um médium como a fotografia que usualmente exige que a exterioridade do momento lhe imprima seu rastro. “Com certeza”, você talvez responda, “a fotografia é casada com o presente como poucos outros médiuns. Certamente, sendo de tal forma do momento presente, qualquer fotografia imediatamente se torna história, e isso por si só é a garantia de que foi contemporânea uma vez e já não é mais. Certamente as mudanças tecnológicas da fotografia, suas plataformas e métodos de disseminação a mantêm nova, tornando-se “velhos” assim que mudem mais uma vez”. Nada disso necessita ser negado. Todas as imagens são contemporâneas porque não há como viajar no tempo.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-13© Neyde Lantyer (Miles Aldridge)

QUANDO É AGORA? ONDE É AQUI?

Um manifesto de uma outra era: Deve-se ser do seu próprio tempo. Assim exigia o escritor Charles Baudelaire. Suas palavras se tornaram o slogan dos artistas e escritores realistas de vanguarda da segunda metade do século 19. Para o pintor Gustave Courbet e seu círculo, por exemplo, a exigência de “ser do seu tempo” representou não apenas uma chamada artística, mas um compromisso com um novo modo de vida, uma nova maneira de ser, uma nova forma de se sintonizar ao mundo. Era uma demanda ao mesmo tempo simples e complexa. Em primeiro lugar, implicava que “o tempo de alguém” tinha um caráter significativamente diferente tanto do passado quanto dos tempos vindouros. De fato, foi no século 19 que artistas e escritores experimentaram pela primeira vez, de forma profunda e inevitável, a ruptura da continuidade da existência, causada pela modernidade. O tempo era inconsistente, “deslocado”. O tempo não mais simplesmente passava de forma natural: o seu caráter mais profundo estava sujeito a mudanças. Em segundo lugar, implicava que o papel dos artistas e dos escritores era mergulhar nessa nova temporalidade e permitir que ela se expresse através deles. Sua tarefa era não olhar para trás, não resistir ao presente e nem prever o futuro. Era capturar a experiência cotidiana em toda a sua particular transitoriedade. Em terceiro lugar, estar atento à textura e ao grão do presente também implicava estar atento ao seu lugar no mundo. Com efeito, “ser do seu tempo” continha uma segunda demanda não dita, que era tão significativa quanto a anterior: Deve-se ser do seu próprio lugar.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-17© Neyde Lantyer (Alice Quaresma)

Mesmo no século 19, ter alguma certeza sobre a natureza do tempo e do lugar de alguém não era fácil. De fato, a emergência de um desejo particular por tal conhecimento, como também por uma arte que o expressaria, era em si mesmo uma resposta para a dificuldade de defini-lo e alcançá-lo. Afinal, tendemos a pensar que sabemos o que é próprio de uma época e de um lugar apenas em retrospecto. Talvez possamos apenas “ser” do nosso tempo e lugar sem de fato “sabê-lo”, no sentido mais completo.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-02© Neyde Lantyer 2017

No século que se seguiu, a tarefa tornou-se cada vez mais difícil. As histórias começaram a entrar em conflito entre si. As populações começaram a se mover. As culturas começaram a se misturar ou se chocar. Revisitações e revisionismos assombraram o desejo pelo moderno. Ordens diferentes de tempo e de lugar, que não podiam ser conciliadas, começaram a se afirmar sobre a vida cotidiana. Mesmo encontrar uma posição fixa a partir da qual considerar as rápidas mudanças se tornou um desafio. Aqui, no século 21, estamos tentando chegar a um acordo com os efeitos daquele longo período de instabilidade, ainda que apenas para nos preparar para as instabilidades vindouras.

 Neyde-Lantyer-Unseen-2017-04© Neyde Lantyer, 2017

ENQUANTO ISSO

Mais do que nunca vivemos em um mundo de “entretanto”, de vidas paralelas, de existências contemporâneas. É assim, quer queiramos ou não, quer aceitemos ou não. Nós fazemos o que fazemos enquanto sabemos, ou não sabemos, ou fingimos não saber o que outras pessoas estão fazendo. Amigos, parentes, operários das fábricas que fazem suas roupas e computadores, humanos como nós na Coréia do Norte ou na Síria. As vidas de algumas pessoas estão mais interligadas que outras. Alguns tentam o isolamento, mas você não pode desfazer o que está feito. O “entretanto” tornou-se o maior desafio para a nossa consciência de nós mesmos como indivíduos, comunidades e cidadãos globais. Ele molda quase todos os aspectos da cultura visual que criamos para nós mesmos. E mesmo quando não formata o fazer dessa cultura visual, o “entretanto” molda nosso envolvimento com ela. Há sempre outra imagem, outra vida, em um outro lugar.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-14© Neyde Lantyer, 2017

FALSOS ANJOS DO ‘ZEITGEIST’

Em qualquer dado período de sua história, quase todo tipo de fotografia foi feito e com todo tipo de atitude. A fotografia sempre foi um “campo expandido”. Em se tratando de um médium tão difundido, adaptável e acessível, como poderia ser diferente? Nenhuma simples forma de imagem pode caracterizar a era em que foi feita. E isso foi verdade desde o início. Pense na variedade de imagens feitas apenas nos primeiros anos da fotografia. Havia tudo, desde vistas topográficas, retratos e estudos científicos até estudos de naturezas-mortas, cópias de obras de arte e composições teatrais de visões imaginadas. Havia fotografias únicas e havia múltiplas cópias. Algumas imagens eram para serem vistas sozinhas, outras eram parte de projetos maiores. Esta gama e variedade tornaram quase impossível a escrita da história da fotografia. Ninguém nem mesmo tentou fazê-lo até a fotografia atingir seu centenário. Quando tentaram, o público ficou primeiramente grato pela ilusão de que uma história coerente poderia ser formada a partir de tal caos. Hoje, nós suspeitamos de qualquer história estabelecida da fotografia assim como devemos suspeitar de qualquer tentativa de definir o seu presente. Por isso ainda há tanto interesse no passado da fotografia. Uma vez que você vai alem das imagens famosas, ele é muito mais rico e muito mais contemporâneo do que podemos presumir.

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-03© Neyde Lantyer (Raymond Meeks)

O presente tende a pensar que os problemas que tem e as possibilidades que possui são fundamentalmente diferentes e muito maiores do que os problemas e as possibilidades enfrentadas pelo passado. O presente sempre pensa que é especial. Talvez tenha que pensar assim. Mas uma conseqüência frustrante é que o presente não pode enfrentar sua própria complexidade e quer definições rápidas de si mesmo. Ele quer um relato simplista e lisonjeiro da singularidade de sua condição. No “mundo da fotografia” nós sabemos o que determina essas definições rápidas e de onde elas se originam. Um: a economia do mercado de arte, que exige “clássicos”, “obras-primas esquecidas” e “sangue novo”. Dois: o determinismo tecnológico que insiste que o presente da fotografia deve ser ditado pelas últimas câmeras e pelos modos mais recentes de disseminação de imagem. Três: os membros sem imaginação dos meios de comunicação culturais que, espiando sobre os ombros uns dos outros, emitem opiniões ansiosas e aleatórias sobre o que é bom e o que não é. Quatro: a presunção de que a fotografia, em questões de urgência política, deve ser o mais definitivo médium do presente. Desconfie de todas essas forças. Desconfie de qualquer noção de “zeitgest (espírito dos tempos)” na fotografia ou em qualquer outro lugar. Desconfie dos tecno-utópicos e dos tecno-distópicos. Desconfie da relação entre dinheiro e valor cultural. Desconfie dos comentários culturais oferecidos pela mídia. Incluindo o meu.

***

Neyde-Lantyer-Unseen-2017-09© Neyde Lantyer 2017

Fotografias © Neyde Lantyer / Fotografia & Cultura

Para maiores informações sobre a Unseen, visite: https://unseenamsterdam.com