FOTOGRAFIAS DE PROTESTOS: “O Poder de Uma Mulher Só Contra o Mundo” – Nosheen Iqbal / The Guardian

Posted by on Apr 15, 2017 in CULTURA, FOTOGRAFIA, POLÍTICA | No Comments

17883751_1438382656203739_6549140213967970179_n© Joe Giddens. Saffiyah Khan olha fixamente para um “ativista” de extrema-direita enquanto um policial o contém. Birmingham, Inglaterra, 2017.

 

A foto de Saffiyah Khan olhando calmamente para um manifestante de extrema direita em Birmingham, Inglaterra, tornou-se instantaneamente famosa. Por que essas imagens são tão fascinantes?

por Nosheen Iqbal, The Guardian

Demonstrações de força e de desafio não são raras em protestos – manifestar-se, pela sua própria natureza, exige um nível de comprometimento que arrebata os espectadores, os apáticos da sua indiferença. Mas o que faz uma foto valorosa, a foto do protesto que vai se tornal viral? Bem, definitivamente, as mulheres. Ou, mais precisamente, uma mulher. Muitas vezes, uma mulher bela e intrépida. Mas principalmente, uma mulher que intimida sem parecer estar fazendo nada muito dramático.

 

3500© Carlos Vera. Menina encara policial em protesto marcando o golpe militar de 1973 no Chile. Santiago, 2016.

Para qualquer um que tente elaborar um diagrama de imagens icônicas de protesto, três motivos imediatamente saltam aos olhos: a dignidade tranquila da mulher; a parafernália da autoridade masculina faminta por confronto (seus escudos, bastões e uniformes pesados); e a dramática reversão de poder que o enfrentamento evidencia.

 

3500-1© David Lagerlöf. Mulher enfrenta sozinha uma manifestação de nazistas. Borlänge, Suécia, 2015.   

Não importa quantas vezes a história nos ofereça espelhos da mesma imagem, há algo irresistível em ver uma foto perfeitamente enquadrada na qual a força bruta agressiva é revolvida e subvertida por um gesto simples e gracioso: uma jovem manifestante casualmente usando o escudo de um policial como um espelho para aplicar seu batom; uma mulher idosa sentada de pernas cruzadas sorrindo na frente de um muro de soldados; uma outra olho-no-olho com filas de policiais simplesmente erguendo a sua mão. Em momentos de calor feroz e agressão, estes são movimentos audaciosos e determinados. Não havia nada de acidental na non-chalance de Saffiyah Khan, sorrindo diante da raiva cuspida do militante da extrema direita, Ian Crossland no comício do EDL (Liga de Defesa da Inglaterra), no centro da cidade inglesa de Birmingham; Ieshia Evans sabia que havia mais poder na calma quando se aproximou da polícia em Baton Rouge, no verão passado.

 

1620© Jonathan Bachman. Ieshia Evans em protesto contra a brutalidade da polícia em Baton Rouge. EUA, 2016.

Essas imagens nos capturam, os espectadores, porque, sim, elas expõem e ridicularizam o autoritarismo – esta é a linguagem visual do oprimido, lutando contra o poder da forma mais deliberadamente banal possível. Naturalmente, nem sempre tais imagens são representações “fieis” daquele momento particular naquele dia particular, mas numa perspectiva mais duradoura, isso quase se torna irrelevante; essas fotos não são fundamentadas na realidade suja e confusa de uma manifestação de protesto, elas refletem mais precisamente nosso otimismo como audiência.

 

2560© Alain Jocard. Mulher enfrenta a polícia nos protestos contra a reforma trabalhista na França. Paris, 2016.

Queremos acreditar nesses momentos absurdos e sentimentalizamos o espírito que eles contêm porque eles nos dão esperança de que protestos possam funcionar e que existe força em simples atos de humanidade.

 

2932© Ognen Teofilovski. Jasmina Golubovska passa baton usando o escudo de um soldado em frente ao prédio do governo em Skopje. Macedônia, 2015.

4452© Chung Sung-Jun. Mulher senta em frente à polícia de choque para proteger manifestantes em uma marcha contra o governo em Seul. Coreia do Sul, 2015.

5090© Sergei Grits. Mulher discute com policiais durante uma marcha de oposição em Minsk. Bielarussia, 2017.