NARRATIVAS QUE SE ENCONTRAM “A poética do encontro, da memória e do acaso” Elidayana Alexandrino – Entrevista

Posted by on Apr 5, 2017 in ARTES, CULTURA, MEMÓRIA | No Comments

 

Escultura de Oskar Garvens, Le repentir, 1900 e Fotografia de Oscar Gustave Rejlander, Night in Town, 1862Oskar Garvens, “Le repentir” (escultura), 1900 / Oscar Gustave Rejlander, “Night in Town” (fotografia), 1862

A Artista Visual e Educadora Elidayana Alexandrino associa aleatoriamente imagens as mais diversas, do repertório das artes visuais, no projeto “Narrativas que se Encontram”, hospedado nas redes Instagram e Facebook. Utilizando-se de critérios subjetivos e escolhas casuais, a pesquisadora vem formando um curioso arquivo de imagens relacionadas. Após detectar similaridades entre composições, linhas, formas e poses, as imagens são apresentadas em dupla, evidenciando seu relacionamento visual. Embora seja uma pesquisa que se situa no âmbito da história da arte, o processo associativo que gera a combinação entre as imagens é bastante intuitivo e se dá em algum lugar entre o conhecimento, a intenção e a surpresa.

Leia a entrevista com a pesquisadora:

F&C – Como Surgiu a pesquisa “Narrativas que se Encontram”?

Elidayana Alexandrino - As imagens que vejo fazem parte da memória do mundo, ou seja, são parte de uma memória coletiva. O projeto “Narrativas que se Encontram” parte dessas imagens que estão espalhadas pelas ruas, nos livros, jornais, revistas, cartões postais, calendários, álbuns de família, TV, filmes, museus, internet.

Quando criança, tive contato com reproduções de obras de arte e esse ‘olhar imagens’ me levou a estudar Artes Plásticas e a trabalhar como Educadora em museus, entre eles, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, que possui um acervo muito diverso. Lá, diariamente, eu me deparava com inúmeros trabalhos artísticos e tinha o desafio de estudá-los. Durante o tempo em que trabalhei na Pinacoteca, meu repertório de imagens só cresceu. Ao pesquisá-las, eu acessava outras e mais outras imagens relacionadas por período, técnica, enfim. Comecei a olhar as imagens e a me recordar de outras, até que um dia percebi que esse processo já estava naturalizado em mim.

Albert Henschel e Tarsila do AmaralAlbert Henschel, “Jovem negra” (fotografia), 1869 / Tarsila do Amaral, “A negra” (pintura), 1923.

F&C – Lendo o texto que vc nos enviou, tem-se a impressão de que a conexão entre as imagens lhe ocorre de forma intuitiva mas, ao observar as imagens, percebe-se tambem que foram associadas de uma forma intelectual. Explique como você as associa.

EA - Olhar imagens pra mim é um processo constante, é como respirar. Tenho um repertório visual variado, sou muito curiosa, aprendo sobre arte olhando e, com o surgimento das redes de compartilhamentos de imagens, o acesso ficou mais rápido e dinâmico.  A visão é o sentido que mais uso, é a partir dela que as imagens são guardadas, e o processo de associar uma imagem à outra se realiza através da memória.  Percebo que, de uma maneira geral, as imagens estão ligadas a um modelo iconográfico da história da arte ocidental, isso faz parte da minha formação acadêmica mas, geralmente as conexões se dão por acaso. Não procuro um tema específico, procuro o que me toca, muitas vezes as associações surgem sem nenhum contexto, olhando algo surge uma lembrança, a forma de uma outra imagem, guardada na memória. Hoje entendo que de fato não é um processo simples porque dentro do turbilhão de imagens que vejo só algumas chamam a minha atenção, e são essas imagens que vão me perseguir pela minha vida toda.

Pedro Peres, Fascinação, 1909 e Michael Blake, 1918.Pedro Peres “Fascinação” (pintura), 1909 / Michael Blake (fotografia), 1918

F&C – Explique a expressão “pensamento visual”, que você usa para definir o seu trabalho. 

EA - “Pensamento visual” é partir da imagem para apreender o mundo. Vivemos em uma sociedade visual e, geralmente, a imagem chega antes da palavra falada ou escrita, e quando não há imagem física, há a projeção, ou seja, a memória do objeto que é transformada em imagem mental. Por isso acredito que o Projeto Narrativas que se encontram parte de um pensamento visual em que uma imagem chama outra imagem.

Augusto Figueiredo, ator a recusa, esconder a identidade, fotografia de Fernando Lemos, PincotecaFernando Lemos “A recusa”, o ator Augusto Figueiredo esconde o rosto (fotografia), 1949-52 / Bluma Weiner, Clarice Lispector (fotografia), 1946

F&C - Vc cita o “Atlas Mnemosyne” de Aby Warburg, e o “Museu Imaginário”, de André Malraux, fazendo um paralelo entre essas obras e o seu trabalho. Qual a associação que vc vê entre esses dois conceitos e o seu projeto? Vc se inspirou nesses catálogos para desenvolver a sua idéia ou os encontrou depois que o seu trabalho foi tomando forma?

EA - Não conhecia nem o Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, nem o Museu Imaginário de André Malraux, entrei em contato com ambos quando meu projeto já estava em andamento, as pessoas começaram a associa-lo, em especial, com o Atlas Mnemosyne, então fui pesquisar e percebi a ligação. É difícil explicá-los porque são complexos, mas os dois trabalhos têm forte ligação com a reprodução da obra de arte e com a memória do mundo, transmitida pelas imagens.

O “Atlas Mnomosyne” do historiador da arte e antropólogo Aby Warburg, é uma pesquisa de imagens semelhantes e agrupadas. Em sua maioria, são reproduções fotográficas de obras de arte, mas não só: há recortes de jornais, revistas, selos, criando assim uma história da arte sem palavras. Para ele, a sobrevivência das formas era transmitida pela cultura do passado, fixada nas imagens. Ele agrupou as imagens em painéis temáticos, criando certas narrativas gestuais, expressivas, compositivas, assim como o meu projeto.

O “Museu Imaginário” do escritor e político francês André Malroux, parte da ideia de um museu sem barreiras físicas e hierárquicas, sem fronteiras temporais, imagens que chegam por meio das experiências individuais e nos habitam, criando uma galeria mental. Meu projeto é divulgado no espaço virtual, ou seja, já rompe barreiras físicas, e quando coloco uma imagem ao lado da outra, elas tornam-se pares com pequenas diferenças e semelhanças desconcertantes, embora separadas no tempo e no espaço.

Carteiro Joseph Roulin, Pintura de Van Gogh e Frida Kahlo, Fotografia de Nickolas MurayVincent Van Gogh “O carteiro Joseph Roulin” (pintura), 1888 / Nicholas Murray, “Retrato de Frida Khalo” (fotografia), 1938

F&C – De que forma a sua pesquisa se relaciona com os estudos da memória?

EA - A memória é um dos temas mais discutidos por artistas na atualidade, porque estamos numa busca interna e externa para entender quem somos. A memória compõe nossa identidade, somos seres sociais porque lembramos fatos da nossa vida e somos ensinados a todo o momento a guardar objetos, documentos e fotos que se tornam registros da nossa existência. As imagens nos ensinam a compreender o passado e, nesse sentido, a arte é a grande transmissora de valores e ideologias que fazem parte da memória coletiva e individual. Quando relaciono minha pesquisa a memória é porque ela me liga aos outros, se um dia esquecermos ou destruirmos tudo que há, perderemos todo o fio de vida da existência humana. Por esse motivo existem museus, para salvaguardar a memória do mundo.

Fotografia de Edward Weston, 1930 e Escultura de Auguste Rodin, La Danaide, 1889-90Edward Weston, “Pepper” (fotografia), 1930 – Auguste Rodin, “La Danaide” (escultura), 1889-90

F&C – Explique o conceito de ‘museu imaginário universal’ ao qual vc se refere no seu texto.

EA - Museu imaginário é a nossa galeria mental de imagens, nossa coleção particular, não é um espaço físico, cada um de nós possui um museu imaginário formado pelas nossas sensações, lembranças, memórias, nossas experiências de vida. Diferente do museu real em que temos que ir até ele para acessar seu acervo, o museu imaginário nos habita, está dentro de nós é único e intransferível.

Fotografia de Jo Ann Callis e pintura de René Magritte.Jo Ann Callis “Mulher com cabelo molhado” (fotografia), 1978 / René Magritte “Reprodução interditada” (pintura), 1937

F&C – A q vc atribui a repetição de temas? Questões culturais, questões inconscientes, cânones artísticos…

EA - Atribuo a tudo isso. Quando uma mentira é dita muitas vezes, se torna verdade. Algumas imagens surgem como uma mentira bem contada, os cânones artísticos nos “ensinam” que Jesus era loiro de olhos azuis, quando há uma quebra nessa representação isso é tido como um insulto, porque já está na cabeça das pessoas esse modelo. Por muito tempo as imagens foram transmissoras de valores e idéias, principalmente para quem não sabia ler, a forma oral de contar história também criou projeções imagéticas de seres e coisas, então acredito que todas essas questões contribuíram para o pensamento visual ser transmitido e fixado, hoje as diferentes mídias reiteram assuntos, o cinema, por exemplo, a todo momento “reinterpreta” um clássico, então fica difícil a morte de determinados temas.

NarrativasEugène Durieu “Nu feminino sentado” (fotografia), 1853-54 / Mc Pherson & Olive “As costas torturadas de Gordon, um escravo fugido da Louisiana” (fotografia), 1863

F&C – Qual são seus planos para o projeto?

EA – Tenho interesse em me aprofundar nos estudos sobre a história da fotografia e da arte em geral. Quero que o projeto “Narrativas que se Encontram” se desdobre em uma exposição e uma publicação e que atinja outros públicos, além das redes sociais. Mas é algo que ainda está em processo, estou pensando maneiras para que isso aconteça.

AnneCândido Portinari “Retrato de Thais Mello Lima (pintura), 1956-59 – A atriz Anne Hathaway no Oscar de 2011 (fotografia), sem autor.

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Elidayana Alexandrino é Artista Visual, Pesquisadora e Educadora, possui Graduação em Artes Plásticas. Desde 2012 realiza atividades relacionadas à Educação, Mediação Cultural e História da Arte. Possui pesquisa artística em imagem e memória.

Conheça o projeto: Pagina no Facebook Narrativas que se Encontram / Instagram: @narrativasqueseencontam