“Exacerbações plásticas e imaterialidades da paisagem contemporânea” RAVENA MAIA Artigo

Posted by on Oct 31, 2015 in ARTIGOS, ARTISTAS, FOTOGRAFIA, PAISAGEM, TEXTOS | No Comments

Paisagem_Submersa © João Castilho

A PAISAGEM NA FOTOGRAFIA CONTEMPORÂNEA

por Ravena Maia (originalmente publicado no blog Dobras Visuais)

Os processos de criação sempre contam mais sobre nós do que imaginamos. Nos estudos e pesquisas é a criação que sustenta aquela faísca necessária para acender uma boa reflexão ou, pelo menos, aquela que igualmente vai revelar um pouco do seu autor.

No meu percurso de vida, partir de Salvador, o lugar da minha infância com tanta identidade cultural, para morar sozinha em Campinas levou-me a experimentar uma relação com outro espaço, outra cultura, com diferenças as quais tive que me adaptar. Minhas referências, o conforto e lugar familiar já não existiam e naturalmente foi necessário inventar modos de viver e construir novas relações. Essa vivência despertou um conflito interno: uma vontade de estar sempre em mudança, trocando as raízes que me prendiam a terra por asas que percorreriam os lugares e cidades onde quero viver. Ao mesmo tempo, o sentimento de adaptação tornava-me sempre estrangeira em qualquer lugar que eu viesse a escolher. E foi desta maneira que encarei o Rio de Janeiro, “a paisagem maravilhosa”, para começar o mestrado e em seguida São Paulo, para terminá-lo.

Img 1-Paisagem_Submersa © João Castilho

Claro, minha experiência não é diferente daquela que muitos vivem atualmente, num contexto de “desterritorialização”. Entretanto, tornou-se uma questão forte, um incômodo que busquei responder por meio da fotografia. Assim, observando certas particularidades da produção fotográfica contemporânea, queria entender de que forma as fotografias poderiam expressar a nossa época, evidenciando as transformações nos modos de perceber e de experienciar o cotidiano. Sendo a fotografia dita documental aquela que tem o real como a matéria-prima para representar, expressar, denunciar e/ou entender quem é o homem, como vive e onde vive, conclui que seria esta categoria fotográfica a chave para identificar tais transformações.

Porém, remando contra a maré de imagens que retratam o homem no documentarismo, meu caminho de reflexão sobre o aspecto documental buscava as marcas das mudanças em imagens cujos corpos aparentemente se ausentam, ou seja, pelo viés da paisagem. Nesta lógica, ao olhar as estéticas da fotografia documental propus o seguinte questionamento: seria possível encontrar indícios da forma como o homem se relaciona com o seu lugar, as diferentes formas de experiência com o espaço que expressam as tendências de seu respectivo tempo?

pedro-motta01© Pedro Motta

Selecionei uma obra contemporânea como estudo de caso, o “Paisagem Submersa” do João Castilho, Pedro Motta e Pedro David, com o objetivo de pensar a estética desta paisagem, destacando suas especificidades, suas abordagens mais poéticas e amplamente subjetivas que me fisgaram ao primeiro contato. As fotografias das paisagens, encontradas nesta produção, seriam significativas para apontar uma forma diferenciada de lidar com o referente e com a representação do lugar no campo documental. Elas colocam em evidência as principais tensões do contemporâneo ao estabelecer um diálogo com a noção de realidade e vivência de tempo e espaço.

Ao olhar para a produção fotográfica atual, vi a necessidade de mapear a história da fotografia documental para trilhar os caminhos dessa representação da paisagem, uma tentativa de tornar a fotografia menos estrangeira para mim. Rever sua história foi imprescindível para identificar quais seriam os reais aspectos que tornam tais fotografias contemporâneas particulares, distintas de produções anteriores, e pertencentes ao seu tempo. Defini, assim, três nortes para a representação do lugar, que metodologicamente foram sedimentando os capítulos da minha dissertação, seriam eles: a paisagem oitocentista; a fotografia documental moderna, de identidade; e o não-lugar na fotografia, a transição para o contemporâneo.

Paisagem_Submersa_-_pedro_motta ©  Pedro Motta

Cada momento levantado contém diversos fatores e problemáticas que não caberiam nesta postagem, por isso, somente destaco minhas deduções iniciais. Para o primeiro período da fotografia, século XIX, as fotografias da paisagem oitocentista expressavam uma estética da seleção do “ponto de vista”, privilegiando o enquadramento e o caráter espacial da imagem para construir uma fotografia em perfeito acordo com a paisagem real. Avançando para as produções modernas, percebi que, neste caso, a representação da paisagem pretendia abordar a relação do homem em identidade com seu lugar. A construção de um lugar identitário e histórico que esteticamente se construía pela modulação formal de elementos fotográficos (pela transparência, clareza e composições específicas) para expressar a realidade de forma objetiva e, portanto, de identificação imediata com o referente.

Para o contemporâneo, o que entraria em questão é a desconstrução deste lugar de identidade pela inserção de produções que expressam uma lógica do “não-lugar”, um termo empregado a partir da teoria do Marc Augé. As paisagens documentais contemporâneas carregam exacerbações plásticas, exploram estilos mais subjetivos que rompem com este lugar-comum da “estética objetiva”, construindo, por fim, imagens que dialogam com a desfragmentação, os limites do pertencer, os vazios e as imaterialidades típicas do contemporâneo.

Paisagem_Submersa_-_pedro_david© Pedro David

Nos não-lugares das produções contemporâneas, o que está em jogo é a forma deste fotógrafo se relacionar com o espaço percorrido. Ao abandonar uma relação direta e optar por expressar o que é “invísivel”, o fotógrafo expõe um espaço que não necessariamente é partilhado por todos, “cria uma tensão solitária” como afirma Augé. Assim, numa narrativa aberta e beirando o ficcional, estas fotografias conseguem documentar o âmbito das sensações e expressividades que compõem igualmente a realidade vivenciada, mas em seus aspectos imateriais.

Pessoalmente, a paisagem contemporânea traduziu a sensação de “estrangeira” que eu partilhava em cada cidade e isto me foi suficiente para entender o próprio tempo e lugar das minhas experiências e conflitos com o mundo. Como qualquer início de pesquisa, parte-se de uma vontade de mudar, chegar a um lugar novo, de onde se é estrangeiro e que logo se descobre que, dificilmente, encontrará um solo para pertencer. Ao final de uma etapa de pesquisa o que criamos são outras dúvidas, estímulo para pesquisar ainda mais. E como resposta para esta paisagem criada, só posso afirmar que a cada tentativa de mergulho nestes lugares percebo que me restará apenas o encontro com uma nova superfície, o fôlego, para outros mergulhos por vir.

Img 3-Paisagem_Submersa © Pedro David

A paisagem na fotografia documental contemporânea: tendências estéticas na obra “Paisagem submersa”

Dissertação de Mestrado em Comunicação. Universidade Federal Fluminense, 2013. _____

Ravena Maia é mestre em Comunicação pela UFF, bacharel em Comunicação – Midialogia pela UNICAMP.