Entrevista: RODRIGO SOMBRA “A obsessão de muitos fotógrafos pela veracidade sempre me soou meio suspeita”

Posted by on Aug 31, 2015 in ARTISTAS, ENTREVISTAS, FOTOGRAFIA, MEMÓRIA, VIAGENS | No Comments

 

tumblr_n537zb9XZw1rtvsnto1_400© Rodrigo Sombra

Rodrigo Sombra tem 29 anos, é baiano de Salvador, e estuda cinema em San Francisco, California. Esta entrevista foi realizada originalmente em inglês, para a Fotografia Magazine, por Graziano Ferri, que gentilmente nos cedeu para publicação em Fotografia & Cultura.

1. Olá, Rodrigo, obrigado pela entrevista. Quais os seus principais interesses como fotógrafo?

Rodrigo Sombra: Embora a fotografia seja em geral descrita como um meio que captura o real, a obsessão de muitos fotógrafos pela veracidade sempre me soou meio suspeita. A fotografia sempre foi outra coisa pra mim. Me interessa mais trabalhá-la quase como uma forma ficcional, explorar como ela se relaciona com a memória ou como pode ser traduzida para um plano mais subjetivo. A fotografia que mais me interessa é aquela que rivaliza com o real, aquela que nos convida a reexaminar os modos pelos quais percebemos a vida e a própria fotografia. Hoje há muitos trabalhos interessantes que exploram esse caminho por meio da pós-produção ou pelo uso de imagens de arquivo, enquanto eu tento fazê-lo em um nível mais elementar: uma câmera, uma lente e um punhado de filmes. Claro que aspirar algo assim é sempre difícil, mas isso funciona como uma espécie de ideal para mim.

tumblr_n53cftePUa1rsyt2fo2_r1_1280© Rodrigo Sombra

2. O seu trabalho parece ser estritamente conectado com as suas viagens. Que lugares você visitou e qual foi o mais inspirador para você em termos fotográficos?

RS: A cidade onde eu cresci, Salvador, é provavelmente o lugar mais interessante em que já estive, em termos fotográficos. Eu poderia falar de sua luz abrasiva, da beleza da gente, de sua topografia e cores anárquicas, e não seria o suficiente para explicar o fascínio que ela provoca. Mas, infelizmente, nenhum outro lugar é hoje tão sintomático da distopia urbana das cidades brasileiras. Violência policial, gentrificação, depredação da arquitetura histórica promovida pelo próprio governo, diminuição do espaço público, racismo estrutural – tudo isso é sentido na vida diária, então é também um lugar difícil de se viver. Há em Salvador uma tensão permanente entre beleza e brutalidade. Os melhores trabalhos fotográficos sobre a cidade são atravessados por essas tensões.

Em abril, voltei da minha segunda viagem a Cuba, onde tenho trabalhado em um projeto chamado “Noite Insular: Jardins Invisíveis”. Cuba exerceu um forte atração sobre mim desde que eu era muito jovem, especialmente através da literatura, de livros de Hemingway ou Pedro Juan Gutiérrez. Assim que cheguei lá para começar esse projeto, há mais ou menos dois anos, parecia muito claro para mim o tipo de fotografia que eu não queria fazer. Falo do imaginário cubano com o qual estamos familiarizados no ocidente: Uma mistura de parque temático marxista e cenário decadente povoado por putas, carros antigos e edifícios coloniais em ruínas. O que sempre me parecia ausente nessas imagens era uma certa languidez inscrita nos corpos, um certo sentido de espera e quietude que parece atravessar a vida por lá. Essas eram questões que me interessavam e, nesse sentido, meu trabalho em Cuba é tanto uma narrativa sobre um lugar quanto uma investigação sobre uma ideia ou um sentimento. A série é, de algum modo, uma resposta ao desejo de deixar a ilha, cultivado pro muitos dos jovens cubanos com quem convivi. É uma exploração da questão da insularidade, da presença estrangeira na ilha, sobre como o mar se constitui historicamente como horizonte de fuga para muitos cubanos.

tumblr_nqu3sunPE81rsln00o1_1280© Rodrigo Sombra

Também tenho uma série sobre o Benin, África, que terminou sendo parte de uma exposição coletiva dedicada àquele país no Museu Afro Brasil, em São Paulo. Benin e Brasil estão ligados historicamente por conta do tráfico negreiro. Há traços culturais partilhados pelos dois países que ainda hoje podem ser reconhecidos. No Benin encontrei um senso de refinamento estético incomparável. E aqui não estou falando da arte deles – que, aliás, é excelente, como no trabalho de artistas como Gérard Quenum, Cyprien Tokoudagba ou Dominique Zinkpé -, mas de como a beleza parece ser um valor da mais alta importância na vida cotidiana. O jeito como as pessoas se vestem ou se comportam nas ruas, nas tarefas mais triviais, exibe tal elegância que é como se todo mundo ali fosse um esteta inato.

Sim, é verdade que a maior parte do meu trabalho é feito longe de casa, mas nem tudo é baseado em viagens. Grande parte do meu trabalho com retratos é centrado no universo mais imediato ao meu redor, em fotografar as pessoas que amo, a minha mulher, meus amigos e família.

© Rodrigo Sombra

3. O que você procura em uma fotografia? Quando se considera feliz com uma imagem que você fotografou?

RS: Gosto de imagens cuja beleza não se dá a ver imediatamente, que nos pedem para manter o olhar nelas por algum tempo até que ela possa se mostrar. Talvez por isso algumas das minhas imagens tendem a ser meio opacas. Como geralmente trabalho com séries, é comum que perceba muitas das minhas imagens como se elas fossem “incompletas”, como se elas pudessem adquirir pleno significado apenas em relação a outra foto daquela mesma narrativa.

Num plano mais pessoal, mesmo quando uma foto não é lá grande coisa, às vezes fico feliz só por ela me revelar algo que eu não havia percebido no momento em que apertei o disparador. Gosto quando as fotos me revelam um detalhe, um gesto, uma certa ambiência que me escapara enquanto fotografava.

tumblr_mtmka5nNiB1sizento1_r1_5001 © Rodrigo Sombra

4. Quais são as principais influencias do seu trabalho?

RS: Algumas influências são difíceis de identificar e há outras que eu deliberadamente abracei. A ambiência de certos filmes de Claire Denis, o toque surreal do trabalho de Manuel Álvarez Bravo ou o uso da cor em Miguel Rio Branco certamente informam o meu trabalho. Às vezes, a descoberta de uma referência abre o caminho para um novo projeto. A ideia de fazer  “Noite Insular: Jardins Invisíveis” veio do contato com a obra do grande escritor cubano Lezama Lima. O título dessa série foi roubado de um de seus poemas.

© Rodrigo Sombra

Quem são seus fotógrafos contemporâneos preferidos?

RS: María Madaglena Campos-Pons, René Peña, Kiarostami, Alec Soth, Ren Hang, Carrie Mae Weems, Hirosuke Kitamura, Ivã Coelho, Matt Lips, Jonathas de Andrade, Thiago Félix, Cristina De Middel, Alex Oliveira e Esther Teichmann.

5. Você tem alguma outra paixão além da fotografia? 

RS: Djavan.

tumblr_n537vzVVRj1rtvsnto1_1280 © Rodrigo Sombra

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