Entrevista: NEYDE LANTYER “As ‘Histórias de Amor Perdidas’ são uma sublimação, a transformação de algo sólido em gasoso, também dentro de mim”

 

São Paulo @ Neyde Lantyer. Achada em São Paulo, 2010

“AS ‘HISTÓRIAS DE AMOR PERDIDAS’ SÃO UMA SUBLIMAÇÃO”

(Entrevista por Mayanna Esquivel Pimenta)

“HISTÓRIAS DE AMOR PERDIDAS” é o título de uma série de fotografias de casais anônimos apresentada pela artista visual Neyde Lantyer no Palacete das Artes/Museu Rodin Salvador-BA, como parte da programação do Circuito das Artes 2015. O trabalho, que atraiu a atenção do público, foi selecionado para a Mostra Triangulações, de caráter nacional, que passou por Goiânia-GO entre julho e agosto. A mostra está volta para Salvador e fica no MAB – Museu de Arte da Bahia até 18 de outubro, acrescida de artistas goianos e cearenses, indo em seguida para Fortaleza-CE. A artista foi entrevistada por Mayanna Esquivel Pimenta para Fotografia & Cultura.

1. O que é o projeto “Histórias de Amor Perdidas”?

Neyde Lantyer: É uma série de fotografias de casais anônimos que foram descartadas por razões desconhecidas. Eu as busco em mercados de rua, antiquários e, as vezes, quando estou com sorte, encontro-as em lugares inesperados.  Edito as imagens originais, usando técnicas diversas, e crio uma nova imagem com minhas próprias interferências. A fotografia achada é o ponto de partida para essa nova peça que vai fazer parte do projeto. É uma obra que se realiza através desses achados, do inusitado de cada nova imagem que vai, pacientemente, se incorporando à série. O trabalho oferece uma “memória”, uma narrativa, mesmo que fictícia, aos romances anônimos, é uma homenagem aos amores que um dia existiram, foram registrados e depois desfeitos.

Achada em Amsterdã © NeydeLantyer 2011@ Neyde Lantyer. Achada em Amsterdã, 2011

2. Como surgiu a ideia do projeto?

NL: Em 2010, eu encontrei um álbum de fotos de um casal em viagem de férias, um ‘diário de viagem’ em fotografias. Tanto as imagens em si quanto algumas sub-narrativas nelas embutidas chamaram a minha atenção. Eu fui tocada por aquela história que me remeteu às minhas próprias histórias de amor que se perderam na vida e no tempo. Foi a partir da aparição do álbum que o projeto surgiu. Desde então, sempre que visito uma cidade, faço a minha pequena “escavação arqueológica” em busca de registros amorosos deixados para trás. Eu me voltei para o campo da memória, há 10 anos, quando comecei a trabalhar com restauração e conservação fotográficas, em 2004, em Amsterdã. Um universo inteiramente novo se abriu para mim, me oferecendo várias possibilidades de expressar minhas questões de identidade e pertencimento através da imersão no medium fotográfico, sua história e seus processos. Por outro lado, o tema das relações de amor sempre me interessou. Eu aprendi a ver o amor como um processo, um aprendizado, o avesso das fantasias românticas mais comuns. Cheguei a pensar em escrever um livro sobre o tema com reflexões colhidas das minhas próprias experiências, observações e leituras e, especialmente, das conversas intermináveis com minhas amigas queridas. O álbum encontrado talvez tenha funcionado como catalisador para esse desejo, transmutando o que teria sido uma ‘tese’, em obra de arte (que é também uma forma de refletir sobre o tema, só que em uma perspectiva não-racional, não-analítica).

3. Quando e onde o projeto foi exibido/executado?

NL: Nos últimos anos, questões de saúde me impediram de estar mais ativa mas, se por um lado eu expus pouco, por outro, o recolhimento favoreceu o amadurecimento de muitas idéias. As “Histórias de Amor …” marcam esse período da minha vida. Não por acaso, o projeto foi se desenvolvendo lentamente, uma eterna obra em progresso, sempre carecendo de melhor formatação – a gente nunca acha que o trabalho está terminado. Mesmo hoje, esse padrão prossegue: quando eu acho que está na hora de fechar, me pego buscando novas fotografias para a coleção: virou um vício. Até que chega o dia em que você é “obrigada” a tirá-lo da gaveta. Em março último, eu estava em Salvador durante a chamada para o Circuito das Artes e este era o único trabalho que eu trazia comigo no computador, então decidi enviar um pequeno recorte da série, que acabou sendo selecionada. Ou seja, o Circuito das Artes 2015 foi o primeiro contato que o projeto teve com o público. A repercussão foi excelente, a série comoveu as pessoas e eu recebi muitos feedbacks bacanas. Em seguida, ela foi selecionada para a Mostra Triangulações, que vai à Fortaleza, Goiânia e, no fim do ano, vem para Salvador. Dessa vez, o recorte foi ampliado, e o projeto está mais robusto, contando agora com 11 fotografias. A partir do momento em que o trabalho saiu da gaveta, tenho tido a oportunidade de conversar sobre ele com várias pessoas e estou pensando em fazer um livro, reunindo toda a pesquisa. No momento, procuro uma maneira de financiar o projeto.

Roma @ Neyde Lantyer. Achada em Roma, 2013

4. Fale um pouco sobre a sua foto favorita e como se deu o “encontro” com ela.

NL: São várias, as minhas fotos favoritas, porem a ‘favorita entre as favoritas’ foi encontrada muitos anos antes da pesquisa e, infelizmente (e paradoxalmente), se perdeu. Em 1999, recém-chegada à Holanda, eu achei no chão uma foto Polaroid, em meio à confusão da “Festa da Rainha”, que é um verdadeiro carnaval. Naquela época, era muito comum a figura do imigrante indiano com uma câmera Polaroid pendurada no pescoço e um buquê de rosas vermelhas na mão, abordando os casais em cafés e restaurantes. Eles cobravam 5 Florins por uma foto e 1 Florim pela rosa. Com a rápida ascensão da fotografia digital, a presença desses fotógrafos diminuiu muito, mas eles ainda existem e hoje cobram 5 Euros pelo registro – creio que aquela foto foi tirada por um deles. A fotografia mostrava um casal se beijando apaixonadamente. Era uma imagem linda, e o fato de que a garota tinha o cabelo moicano tornava a imagem mais ousada e ainda mais especial. A foto estava amassada, como se tivessem tentando rasgá-la, mas o material de que são feitas essas Polaroids é muito resistente, quase impossível de ser rompido com as mãos. Eu guardei aquela foto durante anos e um dia, em uma das minhas várias mudanças em Amsterdã, decidida a me desapegar das “coisas inúteis”, a foto se foi. Mas nunca a esqueci e nunca parei de me arrepender por tê-la descartado. Isso tudo aconteceu uma década antes do início do projeto. A razão pela qual a série é eternamente inconclusa é que eu continuo procurando “a” foto que vai completar o projeto e, finalmente, marcar o seu fechamento. Mas, no fundo, sei que nunca irei encontrá-la pois a imagem que falta é aquela Polaroid, que um dia eu tive nas mãos e joguei fora.

5. Qual a importância que o projeto “Histórias de amor perdidas” tem na sua história?

NL: Creio que a arte é indissociável da vida e, de uma maneira geral, os projetos aos quais me dedico representam algo importante para mim. Eu prefiro trabalhar com temas que têm relação com minha própria história e meu próprio universo e assim vou processando minhas questões existenciais. Este projeto vem sendo desenvolvido há 5 anos e se, por questões de saúde, parte desse período foi sofrida, ao mesmo tempo eu experimentei tambem um florescimento de muitas emoções e experiências positivas. As “Histórias de Amor…” representam uma sublimação, a transformação de algo sólido em gasoso, também dentro de mim.

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Neyde Lantyer é Artista visual, pesquisadora independente em Fotografia e Memória, restauradora e conservadora fotográfica, criadora e gestora de projetos em arte e cultura contemporâneas, ensina fotografia contemporânea, vive e trabalha entre Amsterdã e Salvador. Mais informações: www.neydelantyer.com

Mayanna Esquivel Pimenta graduou-se em Administração de Empresas pela UFBA, possui MBA internacional em Gestão e Marketing pela Devry e é especialista em Mídias Digitais. Baiana de alma mundana, ama viajar, é casada e tem o pequeno Arthur como melhor projeto que já fez na vida.

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MOSTRA TRINGULAÇÕES 2015:

Curadoria geral: Marília Panitz 

Curadores locais: Alejandra Hernandez Muñoz (BA), Divino Sobral (GO) e Bitu Cassundé (CE).

Coordenação Geral : Eneida Sanches

CCUFG Goiania de 30/07a 31/08

MAB Bahia de 17/09 a 18/10 e

MAC Dragao do Mar de 29/10 a 29/11

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