Entrevista: FREDERICO DALTON “A Galeria Transparente é, antes de tudo, uma imagem e o retângulo na calçada, uma origem” – Galeria Transparente – RJ

A Galeria Transparente é uma iniciativa do artista carioca Frederico Dalton a partir da fotografia de um retângulo, originalmente construído na Rua da Glória para acolher uma banca de jornal. Depois de uma primeira intervenção digital realizada pelo próprio artista e partilhada em sua página no Facebook, o espaço virtual passou a exibir continuamente o trabalho de outros artistas, transformando-se em dinâmica plataforma expositiva, abrigada numa página do Facebook. Instigado pelo modo como a Galeria Transparente apropria-se do espaço da cidade e, mobilizando nossa imaginação, ressignifica-o, convidei Dalton para uma conversa (entrevista originalmente publicada no blog O Cluster www.ocluster.com.br )

por Icaro Ferraz Vidal Junior 

O que é a Galeria Transparente?

A Galeria Transparente é um espaço expositivo para trabalhos de arte e fotografia baseado no Facebook e pode ser definida como uma galeria virtual. Porém, enquanto as galerias virtuais convencionais funcionam basicamente como um banco de imagens, na Galeria Transparente cada trabalho é uma interferência digital diferente sobre uma mesma imagem. Esta imagem é a fotografia de um trecho da calçada da Rua da Glória, no Rio de Janeiro, de uma superfície retangular que foi preparada pela prefeitura para servir de base para uma banca de jornal, mas que até o momento permanece vazia. Então, posso dizer que a Galeria Transparente é a reunião de diversas obras de arte digitais para a ocupação ou a interferência neste retângulo. Tecnicamente, cada uma destas obras ou “exposições” é uma sobreposição sobre a imagem da calçada ou a sua alteração através de programas gráficos. Importante para o conceito da Galeria é o ilusionismo da montagem final, que estimula o espectador a imaginar-se diante daquela obra em plena rua.

Tchello d'Barros Tchello d’Barros

Você poderia nos dar um breve panorama da atividade da Galeria Transparente? Quando e como surgiu a ideia? Quantos e/ou quais artistas já expuseram lá?

A ideia surgiu em julho de 2014 durante uma de minhas caminhadas fotográficas cotidianas pelo centro do Rio. Moro na Gloria e, como passo diariamente na tal calçada, certo dia o retângulo vazio me chamou a atenção. A percepção do potencial desta área como espaço expositivo nunca teria me ocorrido sem a minha atividade de street photographer, que consiste em registrar pequenas redescobertas no ambiente urbano. Além disso, naquela época, eu estava postando no Facebook fotos de trabalhos que eu “teria instalado” em determinadas exposições em cartaz no Rio, após tê-las “invadido”. A brincadeira revelava, no entanto, uma séria inquietação acerca dos métodos convencionais das curadorias de arte.

A primeira “exposição” na Galeria Transparente foi uma montagem com um trabalho meu, uma das fotos do ciclo “Vasos – A série alemã”, de 1999. Com a imagem sobreposta digitalmente ao retângulo fotografado, tinha-se a impressão de que ela teria sido ampliada para um formato aproximado de 2,5m x 1.5m e que estaria efetivamente exposta na calçada. Esta “galeria-ocupação” ainda era apenas uma de minhas habituais postagens bem-humoradas no Facebook, entretanto, as reações iniciais indicavam que a maioria dos amigos acreditava que a foto estava realmente na calçada. Surpreendentemente, apenas alguns minutos depois do post, o artista carioca Bob N me enviou uma imagem para ser “exposta”, o que sinalizou o seu entendimento da minha proposta. Naquele momento, nascia a Galeria Transparente.

Em 2014 a Galeria reuniu um total de 43 artistas, incluindo gente de diversas cidades do Brasil, três artistas da Alemanha e dois brasileiros residentes em Nova York. A ideia é juntar nomes consagrados, como Artur Barrio e Mischa Kuball, importante artista alemão da media art, a outros com uma trajetória mais recente. Acho também importante dizer que o contato inicial e o relacionamento com vários dos artistas tem se dado apenas através do Facebook, sem que eu nunca os tenha encontrado pessoalmente.

Neyde Lantyer Neyde Lantyer

Como você mede a repercussão de cada trabalho instalado na Galeria Transparente? Você acha que as “curtidas” e “compartilhamentos” testemunham um novo tipo de relação do público com a arte contemporânea? Como você descreveria essa relação?

Acredito que “curtidas” e “compartilhamentos” são uma maneira de dizer “eu estive aqui”. É algo semelhante a uma assinatura no livro de uma exposição, porém imensamente potencializado pela visibilidade de cada “like” propriamente dito. Mas acho que o melhor indicador de sucesso da GT é o desejo de artistas de verem seu trabalho na galeria. É gratificante receber mensagens de colegas querendo expor sabendo que não haverá remuneração, mesmo que algumas obras demandem muito esforço para sua realização. No entanto, dizer que nisto se inaugura uma nova relação com a arte contemporânea talvez seja ir longe demais. Nem todo objeto de arte é concebido para ser vivenciado em duas dimensões ou na tela de um computador. A Galeria Transparente é uma experiência “bidimensional” a ser completada pela imaginação que quem está diante da tela. Ela não proporciona a presença física e multissensorial que um trabalho exposto em um museu ou galeria pode transmitir. Mais do que lançar propostas para a arte contemporânea, a GT é um experimento situado no vértice entre imagem, Facebook e criatividade. Ela se beneficia da portabilidade dos computadores e smartphones, da resposta imediata das “curtidas” e da comunicação instantânea com os “espectadores”, onde quer que eles estejam.

Além disso, o aspecto híbrido da montagem final de cada “exposição” (imagem da calçada + imagem da obra) pode servir para revitalizar a relação do espectador com o espaço urbano, levando-o a redescobrir em sua própria cidade infinitas galerias transparentes a serem ocupadas com sua imaginação.

Suely Farhi Suely Farhi

Gostaria que você comentasse um pouco sobre os bastidores da galeria. Como é feita a curadoria? O contato com os artistas? As obras digitais estão à venda?

A maneira como a segunda exposição aconteceu, com o artista Bob N enviando espontaneamente um trabalho, antecipou a variedade de “métodos curatoriais” que viriam a ser usados na seleção de artistas. Alguns, se candidatam a expor. Outros são convidados por mim e há ainda os que são recomendados pelos que já participaram. Há dois tipos de “exposições”: aquelas onde uma imagem é sobreposta à foto da calçada (Monica Barki) e intervenções mais radicais com Photoshop (Suely Farhi). Aos artistas interessados neste segundo tipo de realização, envio a imagem-base (a calçada) e tudo o que lhes peço é que não alterem o enquadramento desta fotografia original (sua proporção) nem sua cor. Isto é importante para manter a “serialidade” do acervo da galeria. Algo que também é essencial para o projeto é que todos os artistas tenham perfis no Facebook. Aliás, alguns foram escolhidos a partir do que vi em seus perfis, sem que eu tenha vivenciado nenhum trabalho “material” deles. Dessa forma, a página de um artista funciona como um ateliê que visito para conferir sua criação e eventualmente escolher um trabalho para a GT. Sobre uma possível atuação comercial, podemos, eventualmente, no futuro, com o consentimento dos artistas, produzir edições impressas das intervenções. Mas, até o momento, isto ainda não foi feito.

Clarisse Tarran Clarisse Tarran

Apesar das várias possibilidades técnicas de construção de espaços virtuais, a Galeria Transparente desloca para a virtualidade um espaço urbano relativamente banal. Trata-se de um procedimento tecnicamente mais simples do que construir uma galeria digital completamente nova, mas cujos efeitos no espaço público da cidade parecem ser bastante concretos e, talvez, mais interessantes. O futuro da Galeria Transparente é se materializar no bairro da Glória (penso na performance de Angela Freiberger que aconteceu recentemente in situ)?

Angela Freiberger é uma grande artista, sua performance foi um experimento imensamente positivo e estou aberto a novos eventos como este. Mas não me interessa “materializar” a GT naquela calçada nem em nenhuma outra área da cidade. Acredito que quanto mais imaterial for a GT, mais rica será sua virtualidade. A realização da performance no local de onde se originou a galeria deve servir antes de tudo para reiterar a imprevisibilidade do virtual e não para reforçar uma localização geográfica específica. A Galeria Transparente é antes de tudo uma imagem, e o retângulo na calçada, uma origem. Após ter sido fotografado, aquele pedaço de calçada foge totalmente ao meu controle. Pode ser que amanhã a Prefeitura decida modificá-lo ou até finalmente instalar um jornaleiro lá. Mesmo assim, a GT continuaria existindo plenamente. A Galeria nasceu no ambiente de uma rede social e sua boa repercussão se deve ao fato de ter trazido para este ambiente uma aparência híbrida, um jogo visual e um olhar imaginativo sobre a cidade. Instalar a GT materialmente na calçada significaria diminuir a coerência do experimento como um todo. Além disso, é importante que artistas que vivem em outras cidades ou países saibam que seu trabalho na página da GT no Facebook tem o mesmo vigor e validade que uma performance que tenha sido realizada in situ.

Rubens Pileggi Rubens Pileggi

O que você vislumbra para a Galeria Transparente em 2015?

Ao mesmo tempo em que haverá novos artistas expondo na galeria, penso em dar aos que já participaram a oportunidade de mostrarem uma segunda ou terceira obra. Além disso, ficaria feliz se estudantes, pensadores e teóricos da cultura contemporânea se sentissem estimulados a produzir textos sobre a GT. Espero que esta entrevista possa animá-los.

Cleantho Viana  Cleantho Viana

Icaro Ferraz Vidal Junior graduou-se em Estudos de Mídia na UFF e é mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É pesquisador e vive de bolsa em bolsa por aí. Atualmente mora em Bergamo, Itália, onde faz um doutorado sobre os significados da boca e do cu na arte contemporânea (ainda não consegue não fazer piada ao falar sobre o assunto).

Obs: Esta entrevista foi realizada em 2014. A Galeria Transparente continua a expor trabalhos dos artistas os mais diversos, tendo, no último mês, intensificado a apresentação de performance in sito.

O nosso muito obrigada à Icaro Ferraz Vidal Junior, por nos ceder a entrevista para publicação no nosso site. Originalmente publicada em www.ocluster.com.br

1 Comment

  1. gilvan nunes
    April 11, 2015

    genial

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