VIVIAN MAIER “Fotógrafa Secreta” Leah Borromeo The British Journal of Photography

DOIS FILMES, DOIS FOTÓGRAFOS, DUAS VIDAS

É no mínimo uma interessante coincidência que dois dos filmes concorrentes ao Oscar da Academia de Cinema de Hollywood, na categoria de Melhor Documentário, este ano, sejam sobre fotógrafos. O Sal da Terra (The Salt of the Earth), dirigido por Win Wenders e Juliano Salgado, trata da brilhante trajetória do brasileiro Sebastião Salgado. Fotógrafo extremamente bem-sucedido e um ser humano admirável, a jornada artística de Salgado é retratada em um filme belíssimo que faz jus à sua carreira e visão de mundo.

O outro filme, Finding Vivian Maier (no Brasil, A fotografia oculta de Vivian Maier), de John Maloof e Charlie Siskel, tambem trata da vida e obra de uma fotógrafa, porem, neste caso, o documentário tenta decifrar os passos misteriosos e a visão artística de uma mulher que deixou um incrível legado de centenas de milhares de imagens intocadas.

A diferença fundamental entre as duas histórias é que, enquanto Salgado é, desde há muito, mundialmente reconhecido e premiado pela sua obra, Maier morreu sozinha e desconhecida, depois que toda a sua produção de uma vida, empacotada e esquecida em um depósito, foi leiloada por alguns trocados, sem que nunca ninguém tenha visto sequer uma de suas magníficas fotografias. Leia a seguir a nossa tradução livre da matéria escrita por Leah Borromeu, publicada no British Journal of Photography, em homenagem à Vivian Maier, na tentativa de dar luz à sua trajetória. Acompanha o texto, uma seleção dos seus autorretratos.

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VIVIAN MAIER – FOTÓGRAFA SECRETA E CANDIDATA AO OSCAR - Ela morreu em uma casa de repouso em Chicago, deixando um tesouro secreto em fotografias. E agora foi nomeada ao Oscar (por Leah Borromeo para o British Journal of Photography).

Ela embala uma câmera Rolleicord ao peito, seus olhos encaram seu próprio reflexo. Até recentemente, a mulher por trás da câmera era desconhecida, vivendo uma vida pacata como babá, em Chicago, e morrendo sozinha, em uma casa de repouso, em 2009, aos 83 anos de idade. Quando o esconderijo secreto com 100 mil imagens de Vivian Maier foi “desenterrado”, seu trabalho foi comparado aos grandes nomes da fotografia de rua. Um filme foi feito, Finding Vivian Maier (no Brasil, A fotografia oculta de Vivian Maier), apresentando sua obra para as novas gerações. Mas a própria Maier foi um enigma; quem era, exatamente, a misteriosa babá francesa? O que motivou o seu implacável repertório de imagens e por que ela o manteve tão resolutamente escondido? Na noite de domingo próximo, na premiação do Oscar, em Los Angeles, o filme de Vivian Maier vai concorrer pela categoria de Melhor Documentário – e ela vai estar no olho do centro do mundo.

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Como ela se sentiria à esse respeito? Maier era uma figura privada porem excêntrica, um tipo “Mary Poppins“, que falava com um delicado sotaque francês e nunca era vista sem a sua câmera de médio formato. Ela fez milhares de fotografias entre os anos 1950 e os 70 mas as escondeu em um quarto, onde proibia qualquer pessoa de entrar. Era pobre, e em 2007 seus bens foram leiloados para pagar suas dívidas – seu arquivo de fotografias entre eles. John Maloof, um agente imobiliário e presidente da sociedade história local, os descobriu em um leilão e fez um lance, na esperança de encontrar imagens para um livro que estava escrevendo sobre a área de Portage Park, em Chicago. Mas não tendo encontrado nada relevante, guardou todo o lote em um depósito por dois anos. “Eu era um dos poucos compradores nesse leilão”, lembra ele. “Procurei ‘Vivian Maier’ na internet e nada surgiu. Foi apenas em 2009, ao encontrar um envelope de um laboratório fotográfico com o nome dela, que decidi pesquisar seu nome novamente no Google. O que surgiu foi um obituário, postado apenas alguns dias antes. Desde então, Vivian se tornou minha vida.”

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Maloof possui o que se acredita ser a maior parte do trabalho de Maier, alem de bens pessoais. Mas há mais negativos, cópias, filmes e dezenas de milhares de rolos de negativos não revelados. Alguns deles pertencem a Jeff Goldstein, um morador de Chicago que adquiriu os ítens que Maloof não conseguiu comprar. Ele montou um “espaço educacional e colaborativo” dedicado à obra de Maier, enquanto que Maloof, realizou o documentário e um livro sobre sua vida e fotografia.

UMA VIDA EM IMAGENS

Maier nasceu em Nova York, em 01 de fevereiro de 1926, de mãe francesa e pai austríaco, e passou a infância viajando entre a América e a França. “Por volta de 1930, seu pai desaparece dos registros”, conta Maloof. “Ela e sua mãe foram registradas como vivendo com uma premiada fotógrafa de retratos, chamada Jeanne Bertrand, que nasceu nos anos 1800s e conheceu o fundador do Whitney Museum. Vivian pode ter tido alguma influência artística dela, nestes primeiros anos de vida.” Em torno de 1959, Maier empacotou sua coleção de câmeras de médio formato em uma grande mala rígida e partiu para uma viagem e um ano ao redor do mundo que, segundo Maloof, foi mais que apenas uma viagem de férias. “Eu acho que esta foi a sua viagem de exploração”, avalia. “Tailândia, Egito, Iêmen, Itália, França, Taiwan, Vietnã, Marrocos, Canadá, Filipinas (nota de F&C: o artigo não cita, mas ela esteve tambem no Brasil) – ela foi à todos os lugares. Era independente e intrépida, uma mulher muito reservada, mas tambem opinativa e forte.

“Se Vivian Maier tivesse sido sua babá, ela seria o adulto mais legal que você teria conhecido”, ele acrescenta referindo-se à conversas que teve com algumas das pessoas que ela cuidou quando crianças. “Todas as crianças queriam estar com Vivian. Ela era uma verdadeira excêntrica que as levava em aventuras selvagens explorando a cidade, shows, peças de teatro e campos de morangos. Se encontrasse uma cobra morta na calçada, ela a levaria para casa e lhes mostraria. E sempre teria sua câmera por perto para documentar o episódio. Para uma criança, isso é muito legal.”

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Maier trabalhou como governanta até meados da década de 1990, nunca se casou nem teve filhos. Taciturna e calada, ela ganhou reputação de misteriosa. “Eu acho que Vivian era assim tão secreta porque era uma babá, sem vínculo com qualquer família, sem amigos próximos, alguém que nunca se casou, nunca teve filhos”, explica Maloof. “Pelo que sei, ela nunca teve uma vida amorosa. A fotografia era a única coisa que ela tinha. E se você expõe o seu único vinculo emocional, você fica vulnerável. Se ela soubesse que as pessoas iriam recebê-la da forma que está acontecendo hoje, ela talvez tivesse pensado duas vezes”.

HISTÓRIA REESCRITA

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Agora que seu trabalho foi descoberto, o legado de Maier está garantido. “Cada livro de fotografia de rua terá de incluí-la a partir de agora”, diz Anna Fox, fotógrafa indicada ao Deutsche Borse Photography Prize. “Na história da fotografia, muitas pessoas só foram descobertas depois de mortas, mas as fotografias dela são surpreendentes. Fiquei bastante impactada quando as vi pela primeira vez. O que é mais interessante é a história acidental e o incrível esforço para conseguir trazer o seu trabalho à luz – porque há muito pouco sobre seu passado e poucas pessoas que a conheciam, e isso intriga e aumenta o mistério. Mas suas imagens são belamente construídas e está claro que ela conhecia suas referências. Há um vislumbre de Diane Arbus, um lampejo de Robert Frank.”

Maier pode ter adquirido esse conhecimento em sua grande biblioteca de arte e livros de fotografia, mas não há registro de que ela tenha sido formalmente treinada e, até o ponto em que Maloof está consciente, ela nunca recebeu qualquer feedback de críticos ou peritos. Apesar disso, ela deixou um arquivo secreto de fotografias magistrais – algo que, para Fox, é tipicamente feminino. “É uma história comum, de que apenas pequenas quantidades do trabalho fotográfico de mulheres tornam-se públicos”, acrescenta ela. “Apesar da grande maioria de professores e estudantes de fotografia serem do sexo feminino, esta é ainda uma profissão dominada por homens. Exposições e publicações dificilmente fazem referências à mulheres fotógrafas. Isso pode mudar, vai ter que mudar.”

“Como mulher, você tem uma posição privilegiada”, ela continua. “As mulheres desenvolvem vinculos com as pessoas que estão fotografando e são menos ameaçadoras com uma câmera de médio formato. Há uma ironia sutil e uma delicadeza que constituem o olhar feminino em sua particularidade, embora faça mais sentido olhar para fotógrafos apenas como fotógrafos. As imagens de Vivian são tão fortes que se sustentam, independentemente de qualquer questão de genero.”

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É impossível saber como Maier se sentia a respeito de sua obscuridade, mas suas imagens registram com sensibilidade os desfavorecidos e perdedores da vida. Mais delicado que o trabalho de Arbus, elas sangram de empatia, mantendo uma distância respeitosa, mesmo quando invadem momentos privados de estranhos. Ela capta o olhar distante de um jovem envolto em seus pensamentos e a expressão tensa de uma mulher de meia-idade espiando um homem deficiente, mas os rostos que ela registra são sempre sombrios. O mundo de Maier é sempre um filme noir. E se escolhia pessoas e rostos obscuros, Maier também escolhia locais aparentemente anódinos, mesmo nas cidades mais fotografadas da América. Tendo crescido em Chicago, eu sou muito consciente dos clichês visuais da cidade, incluindo fotos em silhueta do skyline, arranha-céus em perspectiva ao pôr-do-sol e a cena urbana movimentada nas luzes intermitentes do Teatro Chicago. Maier não cai em nenhum deles, capturando a cidade de uma forma mais sutil. “Sempre houve um interesse em fotografia de rua em Chicago, a cidade é feita para isso”, informa Joe Gallina, gerente na loja Camera Central, onde Maier processava seus rolos de filmes. “Mas o estilo de Vivian se destaca porque ela realmente capturou a cidade. Suas fotos são uma história social.”

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Em dezembro de 2008, Maier escorregou e caiu sobre o gelo. Ela nunca se recuperou inteiramente e morreu em 21 de abril do ano seguinte, em uma casa de repouso, no subúrbio. Enquanto ela ainda estava viva, alguém – imagina-se a própria Maier – gravou seus pensamentos sobre a vida e a morte. Embora o som seja fraco e metálico, há uma confiança impressionante em sua voz. “Nada é feito para durar para sempre”, diz ela. “Nós temos que abrir espaço para outras pessoas. É uma roda. Você começa, você tem que ir até o fim, e alguém tem a mesma oportunidade de ir até o fim, e assim por diante. E outra pessoa toma o seu lugar.” Ela poderia estar falando sobre a sua própria fotografia, que por pouco afundou no esquecimento.

Sem dúvida, seu trabalho também irá inspirar outros fotógrafos a pegar suas câmeras e sair às ruas; por enquanto, é apenas bom comemorar sua notável conquista. O escritor Franz Kafka pediu a seu amigo Max Brod para destruir todas as suas obras não publicadas depois que ele morresse – uma ordem que Brod ignorou. Vivian Maier pode nunca ter tido a intenção de que seu trabalho fosse visto por ninguém, mas ao compartilhar o delicado poder de suas imagens, John Maloof, Jeff Goldstein e outros, abriram um magnífico tesouro fotográfico.

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Leia no link abaixo, o artigo original em inglês:

http://www.bjp-online.com/2015/02/vivian-maier-secret-photographer-oscar-contender/

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