WALTER NEY “A Fotopintura e a Memória Afetiva” Pesquisa

© Walter Ney

O fotógrafo Walter Ney nasceu em Andaraí, na Bahia, e hoje vive em Londrina, no Paraná. Tendo se iniciado na fotografia através da fotopintura ainda adolescente, nos anos 70, Walter faz agora, com o projeto “Fotopinturas Memórias Afetivas”, um retorno à sua própria trajetória, resgatando as imagens que povoaram os anos 50 e 60 da sua infância, época áurea da fotopintura tanto no Nordeste onde nasceu e onde jovem trabalhou com a técnica, quanto no Sudeste e no Sul onde mais tarde se estabeleceu.

Ao mesmo tempo, o fotógrafo faz uma bela homenagem à memória familiar coletiva, já que as fotopinturas caprichosamente emolduradas estão presentes nos lares brasileiros cruzando diferentes classes sociais, das mais humildes às classes médias, e fazem parte do repertório de lembranças e relíquias de um tempo que passou, tanto para os que emprestaram suas faces aos retratos quanto para a própria fotografia. Leia a seguir, texto de Walter Ney:

© Walter Ney

FOTOPINTURAS, MEMÓRIAS AFETIVAS  (fotos e texto por Walter Ney)

Quando a fotopintura surgiu na segunda metade do século XIX, ela veio com o propósito de “melhorar” os primeiros retratos fotográficos, cuja qualidade era muitas vezes frustrante, nos primeiros estúdios europeus. Na época, a recém-inventada fotografia ainda não dispunha de recursos para competir com os retratos idealizados criados através da pintura, com os quais a sociedade estava acostumada. Em 1855, dezesseis anos após a invenção da fotografia, o alemão Franz Seraph Hanfstaengl expôs em Paris as primeiras imagens retocadas, que estão na origem da fotopintura como a conhecemos hoje. Em 1863, o francês André Adolphe Eugène Disdéri criou o processo, aplicando tintas à uma ampliação fotográfica de baixo contraste, colorindo e modificando o retrato de acordo com o gosto do cliente. A fotopintura tornou-se um grande sucesso pelo uso das cores, tornando as imagens mais “reais”, alem de se tratar de técnica prática e acessível que garantia certo prestígio social a baixo custo, enquanto que os retratos em pintura eram um privilégio das classes mais nobres.

No Brasil, as primeiras fotopinturas datam de 1866 e a técnica teve seu auge entre as décadas de 1940 e 1980. Com o surgimento de estúdios e laboratórios rápidos de fotografia colorida e com o desaparecimento do papel fotográfico de fibra – material apropriado para a sua realização – a fotopintura artesanal foi praticamente extinta. Hoje, o papel utilizado na impressão fotográfica tem base de resina ou celulose e não absorve os pigmentos das tintas secas e nem das tintas à base de água/óleo, o que levou muitos fotopintores a abandonarem a atividade. Atualmente, com o surgimento da fotografia digital, ainda há no Nordeste estúdios que se dedicam à técnica, utilizando-se dos modernos recursos de edição de imagens do Photoshop, a exemplo do Mestre Júlio Santos (Áureo Studio), no Ceará.

© Walter Ney

Carregando consigo amostras cuidadosamente emolduradas, vendedores ambulantes ofereciam os serviços de pintura de retratos de casa em casa nas cidades e tambem em áreas rurais. Eles recolhiam as imagens originais, em sua maioria retratos 3×4 ou “lambe-lambes” de baixa qualidade, e anexavam fichas com os pedidos dos clientes como cor das roupas, cabelos, detalhes como jóias, etc (note-se a confiança dos clientes em entregar fotografias originais ao vendedor, muitas das quais eram as únicas lembranças da família). Geralmente o pagamento era feito em duas parcelas, a primeira na entrada e a segunda na entrega do trabalho. Há histórias deliciosas como as de vendedores que, na falta de dinheiro, aceitavam receber sacas de arroz, feijão, milho… ou leitoas como pagamento.

Nas regiões Sul e Sudeste, o predomínio da fotopintura, conhecida como “reprodução”, foi na cidade de São Paulo, origem dos mais refinados fotopintores, verdadeiros artistas, apesar de terem a prática apenas como um ofício e não como arte. Nas décadas de 70 e 80, Londrina também teve vários estúdios de fotopintura, tornando-se referência no Norte do Paraná. Ao contrário do estilo nordestino, com cores bem saturadas, em Londrina predominava a “escola” de São Paulo, com cores mais suaves e bordas levemente escurecidas no fundo, efeito dado pelo pintor para sugerir profundidade.

 

© Walter Ney

 

Tradicionalmente a fotopintura era realizada em três etapas: 1) a reprodução e ampliação da imagem original (geralmente a partir de uma foto em preto e branco); 2) o recorte do rosto e a pintura do fundo e 3) o detalhamento do rosto e a inclusão dos demais detalhes (cor, terno, vestido, jóias), conforme o pedido do cliente, anotado na ficha do vendedor. Normalmente as tarefas eram divididas e os fotopintores, em sua imensa maioria, não tinham experiência em fotografar e ampliar. Para isto havia o laboratorista que preparava as ampliações (claras) dos rostos que, posteriormente, receberiam as tintas e retoques. Além do fotopintor, havia também o retocador, o “roupeiro” e, dependendo da demanda, um encarregado de pintar o fundo. Uma das tarefas finais era reservada ao afinador: com um lápis de ponta bem fina ele corrigia as pequenas imperfeições, a exemplo das ferramentas de correção do atual programa digital Photoshop. Finalmente a fotopintura recebia uma camada de fixador (tipo de verniz) e em seguida a moldura.

O material, as técnicas e os instrumentos utilizados eram diversificados. Em regiões mais distantes dos centros metropolitanos lançava-se mão de produtos de baixo preço alem de algumas improvisações, a exemplo da fuligem de chaminé utilizada como pigmento de cor preta e um pedaço de gilete na ponta de um lápis, que funcionava como estilete – tal artimanha, em leves raspadas, servia para dar o “brilho” nos olhos e nas jóias. Outra improvisação comum na última etapa do trabalho era a adaptação de uma prosaica “bomba de fritz”, na falta do compressor de ar com pistola, necessário para pulverizar o verniz fixador…

 

© Walter Ney

O projeto “Fotopinturas – Memórias Afetivas” é um resgate da importância da fotopintura (também conhecida como reprodução), uma das vertentes da fotografia artesanal em vias de extinção no Brasil. Os retratos pintados são obras que testemunham a nossa riquíssima cultura popular e o fértil diálogo que existiu entre a pintura e a fotografia, abrindo também a oportunidade para a reflexão dos significados e re-significados da produção da imagem em períodos, épocas e gerações diferentes.

Diante de tão generoso imaginário da representação de nossas identidades, priorizei trilhar pelas memórias perdidas e tão afetuosas das pessoas e suas histórias de vida, recriadas através dos seus antigos retratos pintados. Fotografei-as ao lado dos seus próprios retratos, onde são todos mais jovens, alguns ainda crianças – agora estão crescidos – alguns viúvos, sozinhos, separados, órfãos… Foi como reatar um elo com os tempos de outrora, quando a fotografia colorida era distante, um resgate de sentimentos na construção de uma memória.

Pensemos a fotografia como infinitas possibilidades oferecidas de leitura e experiências. Criação, intervenção, apropriação, recriação, cocriação… caminhos para sonhos intermináveis.

© Walter Ney

Water Ney nasceu em Andaraí, Bahia e vive e trabalha em Londrina, Paraná.

Visite o website do artista:

http://www.walterney.com/