NEYDE LANTYER “Quando dói, a gente chora” Retratos da Copa de 98

Posted by on Sep 17, 2014 in ARTISTAS, CRÔNICAS, CULTURA, ESPORTES, FOTOGRAFIA, RETRATO | 4 Comments

Jacob Kurc © Neyde Lantyer 1998Jacob Kurc © Neyde Lantyer 1998

COPA DE 98: PORQUE QUANDO DÓI, A GENTE CHORA (por Neyde Lantyer)

O ANO EM QUE A BOLA FOI DAS MENINAS

Cheguei à Holanda em 98, pouco antes da Copa da França. Apesar de ter me aventurado, aos 14 anos, como goleira de um time de meninas inventado para driblar a pasmaceira da cidadezinha no sertão da Bahia onde nasci, sempre me senti distante do futebol. Exceto durante as copas do mundo. Fui, admito, uma jogadora medíocre, cuja carreira nos gramados encerrou-se desastrosamente na segunda e última partida oficial do nosso time no estádio lotado da vizinha Santa Luz.

Àquela altura já tínhamos feito fama vencendo o jogo de estréia e arrebatando os corações entusiasmados da pequena multidão que foi nos assistir num luminoso domingo à tarde no campo de chão batido às margens do Itapicuru. No íntimo, sabíamos que as adversárias eram muito superiores e quem já tinha nos visto treinar (um time contra o outro, por falta de reservas), torcia por elas. Aquelas meninas levavam tudo aquilo muito à sério, defendendo com unhas e dentes as camisas tamanho grande que, por falta de verbas para adquirir uniforme próprio, tomavam emprestadas dos rapazes do Treze de Junho, tradicional clube local.

Flávio Veras © Neyde Lantyer 1998 Flávio Veras © Neyde Lantyer 1998

O nosso, na verdade, era um time de garotinhas mimadas que deram um jeito de levantar fundos para comprar o uniforme júnior do Esporte Clube Bahia, novinho em folha, vestindo perfeitamente bem nos nossos tamanhos. Entramos em campo com os rabos-de-cavalo ao vento, baton vermelho nos lábios, shorts curtinhos e as vestes tricolores “tinindo” de novas (minha camisa azul de mangas compridas era gloriosa!). As adversárias não se davam à tais futilidades. Estrearam com as camisetonas verde-e-brancas do Treze, shorts largos e nem pensar em baton. Estavam ali para jogar futebol!

Por algum milagre inexplicável, vencemos a partida com um lindo gol de Regina, que saiu em disparada pela lateral esquerda driblando 3 ou 4 jogadoras do Treze até emplacar. Pouco antes, Tatiana matara no peito uma bola que vinha certeira na minha direção, defendendo heroicamente a zaga e me poupando de ter que pôr à prova meus parcos talentos de goleira justo no dia da nossa estréia. Em Santa Luz, mesmo com todo o estádio tomado de simpatia por nós – o baton vermelho e o uniforme tricolor, sem dúvida, ajudavam – a sorte nos abandonou e eu caí em prantos, ao me atirar para defender um pênalti segundos depois que a bola entrou no gol, por obra de um chute magistral da atacante Diva, marcando 1X0 para o Treze – o chute mais bombástico que conheci! Em tempo: nosso time tinha lá seus talentos mas, justiça seja feita, nada se comparava às jogadoras do Treze, dentre as quais Maria Elita, uma craque memorável que poderia ter feito carreira se o mundo do futebol não fosse tão exclusivo dos homens.

Bahia © Neyde Lantyer 1998 Bahia © Neyde Lantyer 1998

DITADURA NUNCA MAIS!

Tudo isso durou mais ou menos um ano e, infelizmente, não rendeu nem mesmo uma fotografia. Logo cresci, fui ler, namorar e pouco tempo depois me mudei para Salvador e entrei na universidade, onde iria descobrir que a vida era muito mais complexa do que nos ocorria enquanto brincávamos pelos abençoados campos de Santo Antônio das Queimadas. Tomei conhecimento da tortura, dos assassinatos e desaparecimentos nos porões da ditadura militar, trucidando estudantes e trabalhadores que lutavam contra o regime instalado à força no país desde 1964. A repressão no Brasil teve seu auge por volta da Copa do México, em 1970 – quando a euforia pela conquista do tri-campeonato serviu para abafar a dor e os clamores dos torturados e de suas famílias – e durou enquanto durou a ditadura, atravessando mais três copas. Tardiamente, compreendi que aquele ano feliz em que inauguramos o futebol feminino no sertão da Bahia, entre 1974 e 1975, tinha sido dos mais tenebrosos da nossa história recente, e isso mudou para sempre a minha maneira de ver o mundo.

As esperanças renovadas com o fortalecimento da luta pela redemocratização me reaproximaram do futebol, por obra e graça da lendária seleção de 1982. A devoção de meu irmão e de amigos queridos e a ocorrência de craques de esquerda como o eterno Doutor Sócrates (por quem eu era secretamente apaixonada), foram decisivos para me alinhar, de coração aberto, à torcida brasileira, sedenta por mais conquistas. Era uma obsessão nacional: nos viciamos em ganhar a Copa do Mundo de Futebol e nos plantamos orgulhosamente no lugar de seus maiores campeões. As conquistas nos gramados fortaleceram nossa auto-estima nos proporcionando alegria e pertencimento, emoções das quais não pudemos mais prescindir. E vivendo fora do país, tudo isso é ainda mais incrível!

Mário Vieira © Neyde Lantyer 1988 Mário Vieira © Neyde Lantyer 1998

TERRA ESTRANGEIRA

Na Holanda, logo compreendi que, não fosse pelo futebol, seríamos praticamente desconhecidos lá fora. Foi apenas a partir do governo Lula que o Brasil passou a gozar de crescente visibilidade no exterior. Vivendo uma experiência totalmente nova como estrangeira, eu ignorava os ânimos “futebolísticos” locais e não podia sequer imaginar que minha primeira copa do mundo fora de casa (já estou na quarta!) precipitaria constrangimentos que, como imigrante, mais cedo ou mais tarde eu teria que enfrentar. Aquela foi uma fase de descobertas.

Na multicultural Amsterdam, abrigo de cento e tantas nacionalidades, me encantei com jovens e crianças exibindo suas camisas canarinho – especialmente a 9, de Ronaldo Fenômeno – mas tambem tive meu primeiro contato com a rivalidade argentina, que eu acreditava não passar de lenda, e experimentei o clima levemente hostil que infestou o ar quando eliminamos os holandeses nas semi-finais. Porem, a mais desagradável das novidades era o desprezo ao Brasil, exibido por conterrâneos expatriados. À bem da verdade, em 1998 nosso país passava por um momento tenebroso com o desemprego, as privatizações e a subserviência ao capital financeiro internacional, impostos ao país pelo doloroso governo FHC, entretanto as críticas que ouvi eram equivocadamente despolitizadas, creditando os problemas do Brasil ao seu próprio povo e cultura.

Eu festejei todas as vitórias da seleção e me preparei para sairmos vencedores da final contra a França - que doce ilusão! Durante os 90 minutos da partida assistimos à um time murcho que arrasou nossos egos, presenteando os holandeses com o doce gosto da vingança – apesar de não torcerem para a nova campeã, os “laranjas-mecânicas” viveram a sua revanche, já que fomos nós a eliminá-los daquela copa. Durante todo o jogo, permanecemos sem palavras. O que acontecera com a seleção que vinha demolidora? O que acontecera com Ronaldo Fenômeno? A decepção era cortante. Obviamente, nem nos nossos piores pesadelos fazíamos idéia do que nos esperava 18 anos mais tarde, na Copa do Brasil – ou seja, sequer podíamos imaginar que o que parecia ruim ainda podia piorar muito… Foi então que a fotografia me salvou.

Claudia Trajano e Sérgio Ulhoa © Neyde Lantyer 1998 Claudia Trajano e Sérgio Ulhoa © Neyde Lantyer 1998

LÁGRIMAS NA CHUVA

A idéia me ocorreu rapidamente: uma série de retratos com os brasileiros locais, no calor da derrota: nós, os grandes favoritos, nós que havíamos eliminado a Holanda, nós, tão acostumados às nossas vitórias… Dei um rápido telefonema ao diretor da Revu, uma importante revista semanal holandesa, que gostou da proposta mas me advertiu de que eu teria apenas 24 horas para entregar as fotografias. Mais que depressa saí em campo com a difícil tarefa de convencer as pessoas a vestir novamente a camisa amarela para a foto. Foi um dia emocionante, cruzando a cidade de bicicleta sob chuva fina,  exorcizando a derrota sozinha, determinada a realizar um número razoável de retratos e rezando para que a revista os quisesse!

Naqueles remotos tempos analógicos, só consegui chegar ao laboratório com os filmes para serem revelados na manhã do segundo dia de trabalho, perdendo assim o prazo para o fechamento daquela edição da revista.  Na noite anterior, bem depois do horário comercial, ainda fotografava figuras como Jacob Kurc, dono do Bar Canecão, lendário reduto verde-amarelo no centro de Amsterdam, onde Romário batia ponto quando jogava no PSV. Jacob chegou em lágrimas e hesitou ao vestir a camiseta suada, coberta de autógrafos de craques brasileiros, desolado porem colaborativo. A sessão de fotos foi sensacional mas, infelizmente, para a revista o prazo havia se esgotado e o trabalho estava perdido.

Jacob Kurc © Neyde Lantyer 1998 Jacob Kurc © Neyde Lantyer 1998

REVELAÇÕES

Os retratos de 98 ficaram esquecidos, o tempo passou e em 2002 conquistamos finalmente o Penta, no Japão. Jogamos ainda mais duas copas até o momento da tão sonhada Copa do Brasil, que revelou-se um enorme sucesso, apesar do clima de derrota prévio que contaminou o ar quanto à nossa capacidade logística e, subliminarmente, quanto ao nosso valor como nação – clima esse que logo mostrou-se infundado. No entanto, a ocorrência da Copa do Mundo em solo pátrio não nos poupou de enfrentar o maior fantasma de todos, materializado na histórica e dolorosíssima derrota da seleção brasileira em Itaquera, a grande favorita nas apostas e nos nossos corações…

Todavia, a perda em casa não era um fato inédito: nunca superamos a dramática derrota que nos foi imposta pelo Uruguai no Maracanã, em 1950, lamentada de geração à geração há exatos 64 anos. Mas não somos ingênuos e sabemos muito bem que o futebol guarda seus elementos-surpresa para apresentar apenas na hora da verdade – ou no momento da revelação – como ficou mais uma vez provado nos 7 X 1 com que a Alemanha nos fulminou. Não por coincidência a palavra revelação refere-se obviamente à fotografia, embora mais diretamente à sua era analógica, tambem à digital, já que o médium será sempre o resultado de uma conjunção de cálculos e planos mas tambem de imprevisibilidades e de encantos sem os quais a sua genialidade não poderia se manifestar – exatamente como… o futebol!

Amarildo © Neyde Lantyer 1998 Amarildo © Neyde Lantyer 1988

 

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Muitos agradecimentos à todos os amigos que posaram para estas fotos;

Minha homenagem ao querido Sérgio Ulhõa, in memoriam.

4 Comments

  1. Júlia Abreu de Souza
    September 17, 2014

    Relato entre o intimista e universal entrando por diversos temas,memórias da juventude, emigração, uma certa saudade,euforias. Bonito!

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    • F&C
      September 17, 2014

      Obrigada, Júlia!

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  2. Margô Dalla
    September 17, 2014

    Belos retratos reencontrados e narrativa contundente do passado e presente. Muito legal Neyde!!!!

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  3. F&C
    September 14, 2015

    Obrigada, querida Margô!

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