RAVENA SENA “As Forças da Boa Morte” – Cachoeira

Posted by on Aug 28, 2014 in ARTISTAS, CULTURA, FOTOGRAFIA, RELIGIÕES | No Comments

"Boa Morte" © Ravena Sena

AS “FORÇAS” NA FESTA DA BOA MORTE

(fotos e texto por Ravena Sena)

De modo geral, este ensaio sobre a Boa Morte é guiado por forças, uma tentativa de fotografar “as forças” que muitas vezes se confluem ou se conflitam. Conflitos que não estão explícitos ou em contraste, mas cintilam de maneira discreta.

Discretamente, mas não menos próxima, acompanhei a festa da Boa Morte pela primeira vez. Olhando e acompanhando através da câmera fotográfica, minha perspectiva era saudosista com a própria cultura baiana. Há 9 anos saí da Bahia e, conhecendo diferentes cidades brasileiras, consegui perceber o característico da minha terra, que talvez não percebesse se ainda estivesse imersa em Salvador, sem ter saído de lá.

As forças em Cachoeira, na festa da Boa Morte, se apresentam com uma mandinga especial, num jogo que não revela atritos, apenas um contato de diferenças que se harmonizam ao mesmo toque, ou por compartilhar as mesmas finalidades: a fé e a festa. E este é o jeito da Bahia, um lugar onde as forças de fé, de profano, de alegria, de experiência, de negro e de branco se conectam numa corrente onde tudo é possível e tudo encontra seu lugar. Assim, minhas imagens buscam expressar esse sincretismo particular, que une as raízes e ritos afros que partem dos pés e ganham os céus dos sagrados ritos católicos.

No entanto, o que está expresso nas imagens parte de uma pergunta muito mais ampla e pessoal. O que é essa força da fé, algo humano, que independe de religião? As crenças, a fé, os ritos, sempre me despertaram uma série de dúvidas e reflexões: são coisas da vida, fazem parte da essência humana? Seja fé em algo superior, ou no mínimo uma fé na potência do próprio homem, na esperança de superar adversidades, ou uma crença nos próprios atos e passos que conduzem sua vida à realização dos desejos. São essas forças invisíveis, mobilizadoras, que me provocam, me encantam e motivam o meu olhar.

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

"Boa Morte" © Ravena Sena

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Ravena Sena nasceu em Feira de Santana, Bahia, e vive em São Paulo desde 2012. Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense, possui graduação em Comunicação Social Habilitação Midialogia pela Universidade Estadual de Campinas (2009), atuando principalmente nos seguintes temas: fotografia, documentário, arte e audiovisual.

Mais informações:

https://ravenasena.wordpress.com/

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A festa da Boa Morte é realizada anualmente na cidade de Cachoeira, Bahia, pela Irmandade da Boa Morte, uma confraria religiosa afro-católica-brasileira. A história da confraria da Boa Morte se confunde com o maciço tráfico de escravos da costa da África para o Recôncavo canavieiro da Bahia, em particular para Cachoeira, a segunda cidade em importância econômica na Capitania da Bahia, durante três séculos.

O fato de ser constituída apenas por mulheres negras, numa sociedade patriarcal marcada por forte contraste étnico e racial emprestou à esta manifestação notável fama, seja pelo que expressa do Catolicismo barroco brasileiro, de indeclinável presença processional nas ruas, seja pela incorporação de rituais profanos pontuados de samba e comida, aos festejos propriamente religiosos. Há que acrescentar ao gênero e raça dos seus membros a condição de ex-escravas ou descendentes, importante característica social que explica aspectos ligados aos compromissos religiosos da confraria, tais como a habilidade para cultuar a religião dos dominantes sem abrir mão de suas crenças ancestrais, alem da defesa, representação social e mesmo política dos interesses dos adeptos. (fonte: Wikipedia)