“O que a copa significa para nós” Fotos de MATHIAS BRASCHLER e MONIKA FISCHER The Guardian

Posted by on Jun 10, 2014 in ARTISTAS, CULTURA, ESPORTES, FOTOGRAFIA | No Comments

 

BRASIL 2014: O QUE A COPA SIGNIFICA PARA NÓS

(matéria traduzida do The Guardian, para o Fotografia & Cultura. Fotos de Mathias Braschler e Monika Fischer)

Paulo Cezar Bento, 46 anos, instrutor de futebol, e seu filho Roberto Antonio Santana dos Santos, 24 anos, Favela do Vidigal, Rio de Janeiro

Bento jogou profissionalmente até perceber que a maioria dos jogadores no Brasil tem que se virar com o salário mínimo. Ele é agora um treinador para as crianças locais. “O futebol é a minha vida”, diz. Seu filho Roberto treinou brevemente com o Bangu, um clube da segunda divisão do Rio de Janeiro, e tem tido dificuldades para construir uma carreira fora do esporte. “Eu sofri. Às vezes tinha que treinar com o estômago vazio. Mas eu não sei fazer outra coisa. Tudo o que sei fazer é jogar futebol. ”

Luiz Carlos Beskow, 60 anos, Rio Grande do Sul

Beskow é um “cowboy” gaúcho que nasceu e foi criado no Brasil e vive em Porto Alegre. “Eu sou de descendência alemã, como muitos outros gaúchos, por isso vou torcer para a Alemanha”, diz ele. “Muita gente da minha geração gostaria de estar em um país independente”.

José Carlos, 10 anos, e Gabriel Brayan Santos Marques, 13 anos, Manaus

O gramado artificial rasgado e desigual da praça Prosamin tem sido negligenciado pelas autoridades, mas é bom o suficiente para José Carlos e seus amigos expressarem seus sonhos de estrelato no futebol. Eles vivem em um projeto de habitação pública na periferia da maior cidade da Amazônia, mas as suas imaginações estão em outro lugar. “Se eu pudesse deixar Manaus, iria para Portugal porque eu gostaria de encontrar Cristiano Ronaldo”, diz José Carlos.

Rafael Barros da Silva, 13 anos, aluno da escola de futebol Saber Viver, Recife

Crescendo na Ilha de Deus, comunidade alagada do Recife, da Silva foi exposto à pobreza, drogas e crime desde uma idade precoce. Sua favela costumava ser um dos lugares mais perigosos da cidade. Mas as autoridades retomaram o controle da comunidade e um pastor local tem tentado dar às crianças novas escolhas, abrindo uma escola de futebol em meio às árvores de mangue. O campo é inundado a maior parte do mês, mas os jogadores continuam praticando seus voleios e chutes aéreos na lama. “Esta escola uniu a todos”, diz o pastor Josemir Pedro da Silva. “Hoje, eles realmente me escutam. Em alguns casos, eles me obedecem ainda mais que aos próprios pais.”

‘Indio’ Rogério Bueno dos Santos, 15 anos, Bairro de Fazendinha, São Paulo

‘Indio’ usa o corte de cabelo de Neymar mas, ao contrário de seu herói, é muito tímido para dar entrevistas. Sua família planeja assistir à Copa do Mundo em casa, em uma tela de televisão difusa. “Eu não posso sequer me dar ao luxo de ir ao jogo do Santos”, diz José, o pai de Índio. Ao invés disso, as crianças vão viver seus sonhos no campo comunitário enlameado e esburacado do Bairro da Fazendinha. “Nós temos quase que o suficiente, na nossa família, para formar um time”, diz José, “mas é difícil conseguir unir bastante gente para realizar um bom jogo.”

Awyató (Jaguar), 41 anos, chefe do grupo indígena Sateré-Mawés, Amazonas

Muitos do grupo Sateré-Mawés tiveram contato com o futebol quando foram transferidos para Manaus. “O futebol mantém a comunidade pacífica. Tentamos fazer com que pessoas que não são amigas joguem juntas. Quando ganham, eles celebram juntos.”

Jessie Salustiano da Silva, 31 anos, trabalhador de manutenção, São Paulo

Da Silva fez seu caminho do pobre Nordeste do Brasil para a maior cidade da América do Sul. Ele encontrou emprego como trabalhador de manutenção no edifício Copan, uma estrutura de 38 andares projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer – tão densamente povoado que tem a sua própria zona postal. Toda quarta-feira à noite, ele e seus colegas de trabalho jogam uma pelada. Há também um torneio anual entre os times do Copan. “Quando me mudei para cá, eu fiz muitos amigos jogando futebol”, diz ele. “Futebol alivia a tensão. Você esquece dos seus problemas – deixa-os em casa com sua esposa.”

Maria dos Milagres Meira, 39 anos, dona de casa, Cabaceiras, Sertão

Seco, poeirento e culturalmente conservador, o Sertão, na região Nordeste, é menos avançado em termos de desenvolvimento econômico e igualdade de gênero. Mas Maria vem forçando seus limites desde a infância. Ela jogava futebol ao luar pois não havia eletricidade e seus pais não aprovavam que meninas participassem de um jogo de ‘meninos’. Hoje, ela tem a sua própria equipe. “Futebol, para nós donas de casa sem ter aonde ir, é diversão”, diz ela. Ela e as outras 20 componentes de sua equipe vão assistir à Copa do Mundo em um bar, mas elas prefeririam apoiar o lado das mulheres. “Não é que não há espaço suficiente para as mulheres no futebol – não há espaço algum!”

João Marcos Santana Melo, 22 anos, técnico de TV a cabo, Ondina, Salvador

As regras para os jogadores no campo de futebol à beira-mar em Ondina são familiares em todo o mundo: cinco de cada lado, primeiro marcar dois gols. Mas para João Marcos, este não é apenas o ponto alto de cada fim-de-semana, foi assim também que ele conheceu a sua namorada. Quando o viu jogar, diz ela, se apaixonou. Marcos tinha esperanças de que o futebol se tornaria a sua carreira, mas depois de tentativas mal-sucedidas para ingressar em um time local, ele agora trabalha como técnico de TV à cabo. Mas ele é dedicado ao jogo. “O futebol é uma coisa maravilhosa… eu esqueço tudo quando estou jogando.” Ele torce pelo Vitória, um clube local, mas se opõe aos fãs que levam sua obsessão às últimas consequências. “Se você me convidar, eu assisto à qualquer jogo. Eu não sou fanático.”

Brenda Carioca Pontes, 19 anos, rainha do Peladão, Manaus

O Brasil é o berço de vários tipos de futebol. O principal deles é o Peladão – um torneio que mistura um “baba” com um concurso de beleza. Dezenas de milhares de pessoas vão à esses eventos em Manaus, onde os times apontam uma participante do sexo feminino para competir em dois campeonatos que se sobrepõem. Se um clube perde no torneio mata-mata, ele ainda poderá ir adiante, caso sua candidata seja escolhida, e vice-versa. Brenda foi coroada Rainha do Peladão no ano passado. “É muito gratificante representar um time. Havia muitas meninas: 507 equipes e 507 meninas. Estou muito orgulhosa! ”

Cassiano Silva, consultor, advogado e contador, 30 anos, Belo Horizonte

No bairro de classe alta de Estoril, em Belo Horizonte, o aluguel de uma hora de um campo de futebol custa mais do que o salário mínimo de uma semana. Porem, compartilhados entre 10 jogadores endinheirados da indústria de mineração, os 300 reais ainda são suficientes para uma cerveja, um samba e um pagode, diz Silva. “Futebol para mim representa união. Isso significa se reunir com os amigos, interação, lazer, um momento de relaxamento. Estamos sempre tão ocupados, tão estressados com engarrafamentos. Estamos aqui (neste campo) nesta colina, respirando ar fresco. Quando você está com amigos, você esquece do trabalho, da escola. Isso é o que o futebol significa para mim. ‘

A partir da esquerda: Barbeiro, Tato e Galo Cego, presos no complexo penitenciário Curado, Recife
Quando os prisioneiros chutam a bola sobre o muro fortemente vigiado da maior prisão do Recife, eles têm que ser cautelosos se querem ter sua bola de volta. “Precisamos pedir permissão do guarda para ir buscá-la. Caso contrário, ele vai pensar que estamos tentando fugir “, diz Barbeiro. Ele já cumpriu dois anos e meio de sua sentença por tráfico de drogas. Como muitos na prisão, ele tinha outros sonhos. “O que eu realmente queria fazer era jogar para um bom time. Queria representar o nosso país e lutar por isso “, diz ele durante uma pausa do “baba” diário no pátio de exercícios, o ponto alto do dia dos presos.

Pedro Luna, torcedor do Santa Cruz conhecido como Jesus Tricolor, Recife

A cidade do Recife é famosa por seus torcedores apaixonados. Um deles é Pedro Luna, que se veste como Jesus para amplificar sua mensagem de paz, espiritualidade e fé no clube local. O Santa Cruz foi fundado em 1914 por 11 jovens que costumavam jogar em frente à igreja local. Seu objetivo, diz Luna, era tornar o esporte – na época, uma opção de lazer para as classes privilegiadas brancas – em um “jogo do povo” para todos, incluindo os pobres e os ex-escravos. “Temos uma relação muito original, visceral, com o nosso time. É baseado em uma história de família, passada de geração em geração. A Copa do Mundo só nos reúne a cada quatro anos. O futebol local nos une a cada fim-de-semana. A Copa do Mundo é um evento enquanto que o futebol local é uma religião.”

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