MARISTELA RIBEIRO “As casas invisíveis de Morrinhos” – Feira de Santana

Posted by on May 14, 2014 in ARTISTAS, CULTURA, ESPAÇO PÚBLICO, FOTOGRAFIA, INTERIOR | No Comments

 

 

AS CASAS INVISÍVEIS DE MORRINHOS

(Matéria baseada em entrevista realizada pela crítica e curadora de arte Lígia Motta para o Jornal Folha do Estado. Por Neyde Lantyer para Fotografia & Cultura)

O LUGAR

“Imagino que há de se encontrar no caminho a resposta para a escolha de um lugar. Não sei porque, mas quando passei pela primeira vez em Morrinhos me senti atraída e decidi que faria um trabalho artístico por ali.” É dessa forma que a artista visual Maristela Ribeiro, mestre em poéticas visuais e doutoranda pela Escola de Belas Artes da UFBA, relata as razões pelas quais elegeu a pequena Morrinhos, no interior da Bahia, para realizar o projeto artístico “Casas do Sertão”, que segue impactando e encantando à todos, especialmente, aos moradores da própria Morrinhos.

Maristela nasceu em Feira de Santana, município do Semi-Árido baiano onde se localiza o vilarejo escolhido. Similar a tantos outros vilarejos pobres do Nordeste do país, Morrinhos manteve-se esquecido pelas políticas públicas ao longo do tempo, em detrimento das carências básicas da sua população. “Parece-me relevante, como artista, observar e questionar esta realidade.”

O TEMA

“Casa é sinônimo de abrigo, ambiente de repouso, mais que um espaço físico, é o lugar de interioridade, que garante a distinção entre o público e o privado, constituindo-se como elemento de estabilidade e possibilitando criar raízes.  Sem casa, o homem torna-se errante”, diz Maristela. “O tema da moradia e sua relação com o sujeito tem sido para mim objeto de variados estudos e pesquisas”.

A idéia para o projeto - ou a provocação, como prefere a artista –  surgiu da fala de uma gari da Ilha de Itaparica (ou seja, não no sertão mas no litoral, durante residência artística no Instituto Sacatar, em 2007). Ao longo do seu discurso, a mulher comparava a casa e o corpo: “A minha casa é simples como eu sou, mas não se parece comigo porque eu queria que ela fosse melhor.”  Na sua fala, casa e corpo apareciam repetidamente como uma coisa só, levando a artista à reflexão sobre o espaço doméstico como uma extensão do sujeito, ora refletindo-o, ora introjetando-o.

O PROJETO

Primeiro foi feita uma aproximação com o lugar, buscando extrair uma síntese que permitisse traçar um paralelo entre a reflexão sobre as condições de vida dos seus moradores e as linguagens visuais contemporâneas. Ao fim desse processo, a artista optou por alterar a percepção das pessoas fazendo com que suas casas desaparecessem do cenário ao colar sobre as fachadas imagens fotográficas da própria região de forma que, à primeira vista, causassem a impressão de ausência. Uma metáfora para falar sobre a invisibilidade social que acomete pessoas como aquelas, que vivem e trabalham arduamente durante toda a vida sem que jamais venham a ser valorizadas pela sociedade, como se não tivessem existência. “Essa alteração de consciência do observador me interessou imensamente. Eu queria ressaltar essa invisibilidade.”

“Foi em comum acordo com os moradores de Morrinhos que dei início aos preparativos para a intervenção na aparência das casas, que tanto poderia durar uma hora, um dia, um mês, quanto um ano ou mais, dependendo apenas do interesse dos envolvidos, já que as imagens podem ser facilmente removidas. É importante ressaltar que, durante a realização da primeira etapa do projeto, os moradores foram cadastrados no programa “Minha Casa Minha Vida Rural”, o que favoreceu a realização de um trabalho de cunho mais efêmero, com características transitórias.” O programa do governo federal beneficia famílias carentes com a oferta de casas populares.

DONA LUIZA, RUA DAS FLORES

Ao ser questionada pela crítica e curadora de arte Lígia Motta sobre as razões pelas quais escolheu trabalhar com “imagens imprevistas deslocadas”, a artista relata a vida de Dona Luiza, moradora da rua das Flores, dona de uma das casas que figuram do projeto “Casas do Sertão”, em Morrinhos.

“Talvez o contato com Dona Luíza tenha favorecido o aparecimento da síntese que eu buscava. Rezadeira antiga, trabalhadora rural aposentada, de jeito doce e trato simples, Dona Luíza, aos 80 anos, é a proprietária da casa de taipa das janelas verdes, com chão batido, de cômodos minúsculos separados por cortinas de pano, que fica localizada, por ironia, na emblemática Rua das Flores. Com apenas três blocos de construção de cerâmica superpostos de cada lado e uma tábua solta, ela criou um banco que fica do lado de fora da sua casa, encostado na parede da entrada. Segundo ela, para o conforto e a distração de todos os que acompanham o movimento da Rua das Flores onde o tempo todo meninos jogam bola, pulam e brincam, mulheres descem carregando lenha e sobem com latas d’água na cabeça, homens puxam animais, cavalos, jegues e motos e onde galinhas, galos, pintos e cachorros circulam livremente.”

“Não há sanitário na casa de Dona Luíza. As necessidades fisiológicas são satisfeitas no mato, atrás da casa. Não há água encanada. O banho é de balde no chão batido da pequena cozinha composta por um acanhado fogão de lenha, um armário de três portas, uma prateleira com poucos mantimentos, três ou quatro panelas pretas pela fuligem e fumaça do borralho, um bule, uma garrafa térmica, um pote d’água, algumas canecas, meia dúzia de talheres e pratos. Em um só quarto de aproximadamente 9 m2, dormem em três camas de colchão de capim cobertas por dois mosquiteiros a avó, as netas e o medo que as acompanha em dias de chuva e trovoada – segundo elas, medo de a casa cair. As paredes do quarto são forradas com tecidos de chita com grandes flores azuis, as únicas flores que vislumbramos na Rua das Flores. No canto do quarto, duas malas e uma sacola onde, possivelmente, são guardadas as roupas e os pertences.”

“A escuridão causada pela ausência de janelas no interior da casa de Dona Luíza é amenizada pelas frestas dos caibros irregulares do telhado e das varas das paredes de taipa que não vedam completamente o ambiente, deixando entrar uma luz tênue, que contribui para criar uma atmosfera de penumbra. Por estas mesmas vagas entra sobretudo água, em dias de chuva e tempestades. A sala diminuta, composta por um sofá, uma cadeira plástica infantil, uma mesinha de 60 cm x 80 cm e uma televisão de 14 polegadas, é o espaço de convivência da família. É também o lugar onde dormem outros familiares que aparecem de vez em quando. Os jovens assistem TV e Dona Luíza passa horas cerzindo as roupas puídas. Além dela, vivem ali uma neta de 20 anos, outra de 14 anos e a bisnetinha de 4, filha da mais velha, cujo companheiro está sempre ausente, em busca de trabalho.”

“A falta d’água é constante, a seca assola a região frequentemente, mas a Rua das Flores prossegue a mesma. Nos finais de tarde, quando chega a brisa, ouvem-se casos dos antigos, como Maria Rocha, Ludugero e Caetano, que em uma briga perdeu a mão esquerda, enterrada junto à cruz da praça, em frente à capela. Há também histórias de assombração, como a da “mulher da trouxa”, que transforma em estátua o curioso que a mira, ou a da “carroça” que vagueia pelos ares com um vulto coberto fazendo zoada, na véspera de uma tragédia, circulando enlouquecida e arrastando correntes nas madrugadas escuras de ruas vazias e mentes cheias de imaginação. A Rua das Flores é assim, movimentada em determinados horários do dia. Em outros, depois do almoço, por exemplo, no calor sufocante da maioria dos meses do ano, a Rua das Flores silencia, dorme, se acalma. Não se ouve nem se vê ninguém.”

 

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Maristela Ribeiro

Artista visual, mestre em poéticas visuais, doutoranda em artes visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Iniciou seu percurso artístico por meio dos Salões de Arte promovidos pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Seu trabalho artístico aborda o diálogo poético com experimentações oriundas das linguagens visuais contemporâneas, práticas hibridas e outros mecanismos advindos da técnica fotográfica, tendo recebido diversos prêmios e menções.

Lígia Motta

Crítica e curadora de arte. Especialista em Artes Visuais, Cultura e Criação. Escreve a Coluna Arte e Galeria no Jornal Folha do Estado há mais de 10 anos.