EDGARD OLIVA “A Grande Arca”

Posted by on Sep 4, 2012 in ARTISTAS, CULTURA, FOTOGRAFIA, HOME, INTERIOR | No Comments

Quando menino, eu visitava com meus pais algumas casas nas quais os moradores faziam presépios. Dos mais marcantes para mim, o primeiro era o de Dona Cota e Sr. Fernando, em Itapetinga, Bahia, um casal sem filhos e que criava um tatu como bicho de estimação. O animal doméstico tinha nome e atendia nossos chamados. O casal morava em um sítio a 10 quilômetros do centro da cidade. O outro presépio era feito por duas primas de minha mãe, Amélia de Almeida Sampaio (Milu) e Helena de Almeida Sampaio (Neni), na cidade de Itaquara, Bahia. O corpo cresce, chega a adolescência e com ela a idade dos estudos do segundo grau, atual ensino médio. Fui enviado para morar em Salvador, capital do estado, sítio de boas escolas públicas naquela época. Daí em diante poucas vezes eu voltei para visitar Sr. Fernando e Dona Cota ou Milu e Neni nos períodos natalinos. O afastamento. O tempo passa, a gente cresce e parece que o mundo fica pequeno, e grande também. Não há mais tempo para nada, os estudos tomam conta de nossas vidas e a vida de gente grande é complicada, parece um caldeirão de problemas. O trabalho e a sobrevivência na capital nos afastam da infância que fica para trás, a infância marcada pelo tempo e que deixa um rastro de histórias.

Como habitante da cidade do Salvador, já nas décadas de 1980 e 1990 só me restava fugir, fugir para bem longe, para as montanhas da Chapada Diamantina, para um descanso nas férias, como no passado, mas em busca de algo perdido, outro lugar, outra gente, resgate do tempo da infância no interior em que brincava na chuva e coletava pedras de quartzo após o temporal. Elas pareciam diamantes, eram simbólicas e eu as guardava enterradas no quintal da minha casa como se fossem verdadeiras pedras preciosas; tinha até um mapa da mina desenhado por mim também guardado em local que só eu sabia. Deixei tudo para trás, vim para a capital e o tempo passou. Daí que um dia eu estava na Chapada Diamantina, mais especificamente em Igatu, distrito de Andaraí, e parecia que o tempo tinha voltado à época da infância. Conheci Sinhá Idalícia e no seu presépio estava um monte daqueles brinquedos, todos arrumados como se fossem diamantes que brilhavam com a luz do dia que adentrava a casa. A luz diurna que entrava, pela porta e pela janela, iluminava as lâmpadas de tungstênio postas ao chão, já obsoletas. Idalícia oferecia café, fazia renda de bilros e contava as histórias de Igatu. No seu presépio eu conheci Catita e Mateus. Meus olhos brilhavam e eu sorria como uma criança. Noutros presépios, brinquedos não faltavam: novos, velhos, limpos, sujos, quebrados, inteiros, e ao redor deles muitas plantas. Havia a imagem do menino Jesus e dizem que é por causa dele que se fazem estas coisas.

Montam montanhas com árvores, gente, casas, carros e aviões; presentes diversos; tem restos de revólveres como uma alusão à violência atual, ou à do passado, também? Tem santos e muitos objetos sagrados; tem sincretismo religioso, também. Crê-se em tudo. Pede-se tudo. As plantas dão vida àqueles objetos inanimados, todos harmoniosamente compostos, como se aprende em uma escola de artes. Os autores de presépios nos contam várias histórias, e é como ouvir contos de fadas. Aurenive Moreira Neves, em João Correia, narra imensas estórias de Catita e Mateus. Dona Alice Ferreira Braga fala dos Ciganos, da cura de uma doença. Antonia Pereira dos Santos refere-se ao sonho, pertencente ao imaginário de Maria, mãe de Jesus, de conteúdo rico na plena fantasia da crença. São tantas estórias. É para encantar e nos fazem voltar no tempo, como em Itapetinga ou em Itaquara, nos tempos em que se andava nas ruas sem medo. Mas o tempo não volta e o presépio de hoje reflete o medo, a violência. Na nossa memória, persiste o presépio de outrora em que os dias tranquilos ainda eram mais frequentes.

Esta exposição faz parte do projeto A Grande Arca que teve sua primeira mostra na galeria do Goethe Institut de Salvador em 2002, como parte do projeto IV Mercado Cultural organizado pela Casa Via Magia. A segunda mostra aconteceu na Galeria Cañizares na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia como projeto conclusivo do Mestrado em Artes Visuais do programa de Pós Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes UFBA. Em seguida, e em menor proporção, foi exposto na cidade de Andaraí na Casa Cultural Coronel Pitá, a convite do patrono o Sr. Joaquim Coutinho. Em dezembro de 2006, estava eu em Amsterdã, na Galeria Arps & Co, para realização de um workshop e exposição sobre os presépios da Chapada Diamantina, como primeira mostra desta pesquisa visual na Europa. Em Portugal, na Escola Superior e Artística do Porto, uma palestra e uma mostra de vídeo documentário sobre este fascinante assunto. Em 2007 foi mostrado na Galeria do Pátio no Centro Cultural da CAIXA em Salvador, Bahia, e, seguiu para a CAIXA Cultural Rio de Janeiro, Minigaleria, em 2008, e, ainda em 2008, seguiu para a cidade de Le Port, na França, Espaço D-2, pertencente a l’École de Beaux Arts de la réunion, que possui intercâmbio cultural com a Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciono Fotografia.

por Edgard Oliva
Artista Visual (por ocasião da abertura da exposição na Caixa Cultural de São Paulo de nov/11 a fev/12)

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