CLAUDIO EDINGER “De Bom Jesus a Milagres”

Posted by on Sep 4, 2012 in ARTISTAS, FOTOGRAFIA, HOME, INTERIOR | No Comments

De Bom Jesus a Milagres

Claudio Edinger

Em setembro de 2005 li que haveria uma festa em Bom Jesus da Lapa e corri para lá. Voei até Barreiras, com duas assistentes. De lá alugamos um carro. No caminho, a estrada estava bloqueada por caminhões cujos motoristas protestavam contra a miserável condição da rodovia.

Era o começo do projeto e não dava para esperar: a procissão em Bom Jesus sairia no dia seguinte. Fui pela contramão até onde não dava mais, desci, fui conversar com o pessoal. Depois de dividir 20 reais com dois sertanejos locais, que abririam as cercas de arame farpado para passarmos, conseguimos achar um corta-caminho por dentro das fazendas e seguir viagem.

Chegamos a Bom Jesus, à beira do rio São Francisco, uma cidade que vive da cultura religiosa, destino de romeiros viajando em paus-de-arara, vindos de todas as cidadezinhas da região. Aí começa minha aventura no sertão da Bahia, em direção a Milagres. Foram sete anos, cinco viagens, duas mil chapas de filmes 4×5, quatrocentas fotos de polaroide e 20 mil quilômetros percorridos.

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O filósofo Sir Francis Bacon diz que a função do artista é aprofundar o mistério. O real não é real. Em pleno século XVII, era sobre fotografia que ele escrevia. Já que é uma mentira que conta a verdade, a fotografia é, ao mesmo tempo, um instrumento do conhecimento e uma viagem ao desconhecido, ao mistério – mas que deixa pistas, provoca reflexão, excita a imaginação.

O fotógrafo é o alquimista que transforma oxigênio em imagens. Marcel Proust diz que cada leitor descobre quem é ao ler um livro. O papel do escritor, afirma, é servir de “instrumento ótico” ao leitor, que, sem o livro, jamais descobriria quem é por si. O instrumento ótico de que Proust fala, na verdade, pode ser a fotografia. Ela serve de espelho e janela, como bem explica Eder Chiodetto em seu texto, onde nos vemos e de onde espiamos e aprendemos sobre os outros e o mundo.

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O tema da identidade me interessou desde cedo. Não é difícil entender o porquê. Afinal, sou filho de alemão com russo, judeu que cresceu cercado de amigos católicos, economista apaixonado pela fotografia, carioca que viveu a vida toda em São Paulo e, a partir de 1976, passou 20 anos em Nova York – sempre o estrangeiro!

De volta ao Brasil, era preciso reinventar-me, redescobrir o que é ser brasileiro e onde, aqui, é o meu lugar. Comprei uma câmera de grande formato com a intenção de fotografar o Rio de Janeiro, o lugar onde nasci mas onde nunca morei de fato. A câmera grande aproxima ainda mais o assunto do fotógrafo já que, quando fotografamos com ela, não olhamos através dela, como nas câmeras comuns. A relação com o que fotografamos é muito mais íntima e real. Quando Susan Sontag diz “a fotografia é mais real que a própria realidade” ela parece falar da fotografia em alta definição, obtida com o negativo de grande formato. Para testar essa câmera fui até a Chapada Diamantina, no fim de 2000, onde fiz as primeiras fotos com o negativo de grande formato, em preto e branco.

Em seguida comecei a fotografar o Rio. A paisagem exuberante da cidade serve como metáfora sobre as possibilidades de nossa cultura. O Rio é uma belíssima mistura de praia com montanha, de favelas inseridas cirurgicamente em bairros de classe alta. Uma cidade de contrastes extremos, convivendo em constante desarmonia harmoniosa – imitando o que acontece com qualquer artista.

Depois fotografei São Paulo, o lugar onde moro, onde estudei, onde estão todos meus amigos e família e onde, em 1973, descobri a fotografia. O nome do livro São Paulo –Minha estranha cidade linda denuncia a busca pelas contradições extremas de uma metrópole sul-americana.

Continuei a pesquisa procurando o lugar mais brasileiro do Brasil, como se isso fosse possível. Fui até onde o país foi descoberto e, de lá, acabei no sertão baiano. O sertão brasileiro, de Minas ao Ceará, tem produzido algumas das obras mais extraordinárias do país – com Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Castro Alves, Jorge Amado, Marcel Gautherot, Pierre Verger, Marc Ferrez, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga –, sem falar nos grandes poetas de cordel. O sertão pode ser considerado, pelo menos geograficamente, o coração do Brasil, e talvez daí venha sua importância para nossa cultura.

No coração da Bahia começava uma nova fase de minha pesquisa com o foco seletivo, que havia começado em 1986 na Índia. Na época, meu foco seletivo era feito com a luz do flash. O foco e o desfoque representam esta dualidade, que é o grande mistério. Ponto e contraponto, luz e sombra destrincham e enriquecem o que vemos. O foco seletivo é a síntese da síntese.

O sertão, palavra que deriva de desertão, transformou-se num estado de espírito nacional, um lugar onde os elementos e a natureza conspiram sempre contra. Onde grande parte do ouro e diamantes foi extraída e surrupiada pelos colonizadores portugueses, possibilitando boa parte da revolução industrial na Europa e deixando para trás cidades históricas lindas, de estilo colonial barroco, esquecidas no tempo, preservadas como fotografias antigas guardadas num baú. Um lugar de coronéis que, durante muito tempo, praticaram a concentração de terra, gerando conflitos e, por conseguinte, cangaceiros famosos como Lampião e Maria Bonita. Sertão como um “Velho Oeste” nacional, terra de Antônio Conselheiro e sua guerra santa surreal em Canudos, na qual foi preciso um exército de 8 mil soldados com canhões, depois de quatro tentativas frustradas, para massacrar os pobres sertanejos. Sertão que, hoje, desenvolve-se assombrosamente, transformando-se numa parte do celeiro do mundo com grandes plantações de soja, algodão e café.

Tentando decifrar a iconografia da região o visitante descobre que o essencial mesmo é a combinação de cores. Estas cores vivas parecem suprir todas as necessidades físicas, materiais, básicas. As cores trazidas pelo homem injetam transcendência no sertão estéril. As cores fortes produzem paixão, alimentam possíveis desejos, matam a solidão, elevam e embriagam o tédio sertanejo. Cèzanne explica o que é isso, sob o ponto de vista do artista: “Não existem modelos, não existe paisagem – só a cor existe.”

 

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Pequeno enredo para imagens distraídas

Eder Chiodetto

 

Abriu um livro de fotografias para ver o mundo com os olhos de outra pessoa, foi? Então responda: fotografia é janela ou espelho? Posso te ajudar. Toda fotografia é o relato de alguém que vê mundos existentes, e outros criados por ela mesma, a partir de muitos olhares inevitavelmente herdados ao longo da vida.

O olhar de um fotógrafo é, pois, o adensamento de muitos olhares que o antecederam. Em casos especiais, a essa herança visual o fotógrafo acrescenta um comentário, um gesto, uma centelha autoral. Aí você pega o livro desse fotógrafo para ver o mundo, emprestando esse olho que ele sintetiza, tendo como guia os seus próprios olhos. Seus olhos que, por sua vez, também são o ponto de encontro de muitos pontos de vistas que você antropofagicamente construiu, devorando olhares no cinema, na TV, nos sonhos, nos livros, nas viagens. Pois sim, fotografias são janela e espelho…

Portanto, não se olha o mundo impunemente. Quando olhamos algo, é toda a humanidade que espia por nós ou através de nós. Olhar, logo, é gesto de legitimação da cultura.

Olhar é assim: a gente estica os olhos até onde a curiosidade manda e os detém ali. Espia tudo, vê o contorno, a cor, a forma. E quando a gente olha algo assim, com curiosidade, a gente é obrigado a não olhar de fato o restante, o entorno. O entorno é aquilo que escapa, mas não foge. O entorno permanece ali, tem volume, está perceptível, porém, todo anuviado, já que nosso foco de atenção está além ou aquém dele. O olho mantém o entorno na cena, sob vigia, mas sem lhe dar atenção. Esse não dar atenção mas tendo consciência da matéria, é o correlato da poética das coisas falsamente desimportantes que fez o poeta Paulo Leminski olhar de forma oblíqua para o incerto e afirmar: “distraidamente venceremos”!

Nessa aventura sertão baiano adentro, Claudio Edinger vagueia com seu olhar distraído no limite em que a gênese criativa necessita. Ele aponta a câmera para uma cena certeira e, com suas estratégias, a desconcerta, a distrai de si mesma. Uma cena distraída dela mesma é uma paisagem visual que flutua diante dos nossos olhos. Ela não certifica, mas tão somente cita seu tempo-espaço, como se narrasse em suas tramas um tempo imemorial, uma fábula. Ela já não pretende mais comprovar a existência de algo, pois sabe que sua vocação maior está em sua potência em excitar a percepção sensorial, a tocar aquilo que pode estar do lado de lá, ou internamente à própria imagem.

Distraída, essa fotografia se torna mais sorrateira. Pouco a pouco ela, paradoxalmente, vai deixando de reter a imagem e semelhança do mundo, para preservar dele algo mais essencial: a sua atmosfera. Fotografias que principiam no olhar, mas atingem uma construção mais complexa. Relato tão potente quanto impreciso, posto que a crença recai mais sobre os devaneios que acompanham os rascunhos, os ensaios, que no trabalho passado a limpo. Campo aberto a significações. Lacunas a serem preenchidas com a imaginação.

Já que o livro está aberto para experimentações, vamos testá-lo. Olhe bem algumas dessas imagens. Feche o livro. Feche os olhos. Tente recuperá-las detalhadamente na memória… A cada tentativa a imagem mental tende a se tornar mais e mais diáfana, imprecisa, com contornos suaves, a espessura ganhando volume… em pouco tempo restará apenas uma sensação de cor e luz num desenho errático.

Cor e luz, afinal, parecem mesmo ser a resultante desse roteiro geográfico-onírico empreendido por Edinger entre Bom Jesus da Lapa e Milagres, no sertão baiano. As fotografias, o relato do viajante sobre essa determinada geografia, mas também ao interior de si mesmo, surgem na fronteira entre ser e vir a ser. O mesmo plano, que se apresenta parte em foco e parte em desfoque, desestabiliza de tal forma a imagem, que a escala dos volumes se torna uma vertigem. Grande ou pequeno? Perto ou longe? Real ou imaginário? Entre tais dilemas, somos tragados pela porosidade das imagens que em suas espessuras e densidades nos desloca para um estado contemplativo raro de se obter, sobretudo a partir de uma palheta de cores tão diversa. Fotógrafos quando pensam em silenciar o mundo, geralmente optam pela estética do preto-e-branco. Obter o silêncio na cor é algo muito mais desafiador, que Edinger realiza com a maestria habitual.

Entre janelas e espelhos, o fotógrafo-andarilho nos empresta seu olhar, educado pela história da arte, mas também pelas pedras, pela luz e pelos olhares das pessoas do sertão, para que a gente perceba a poesia avassaladora que repousa silenciosa e distraidamente nos recantos do Brasil.

 

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O Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) inaugurou, no dia 04 de maio de 2012, a exposição “De Bom Jesus a Milagres”, do fotógrafo Claudio Edinger, com curadoria assinada por Leonel Kaz. Durante o evento, foi lançado o livro, impresso na gráfica Ipsis e coordenado pela Editora BEI. A exposição foi encerrada no dia 03 de junho, e suas fotos tem seguido roteiros itinerantes, desde então.

 


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