“A Memória em Imagens” DÉBORA DIAS (artigo)

Posted by on Sep 3, 2012 in ARTIGOS, CULTURA, FOTOGRAFIA, HISTÓRIA, INTERIOR, MEMÓRIA, TEXTOS | No Comments


“(…) a essência da imagem é estar toda fora, sem intimidade, e no entanto mais inacessível e misteriosa do que o pensamento do foro íntimo; sem significação, mas invocando a profundidade de todo sentido possível; irrevelada e todavia manifesta, tendo essa presença-ausência que faz a atração e o fascínio das Sereias (Maurice Blanchot)”.

RESUMO

Neste artigo será proposto um estudo da fotografia como representação cultural e como objeto de leitura e interpretação, alimentado pelo universo simbólico da comunidade do município de Iaçu-Bahia (Município do Centro Norte Baiano com pouco mais de 25.000 habitantes) e para além de suas fronteiras, na observação de fotografias selecionadas a partir de  1929 e analisadas na sua singularidade poética, contribuindo para a retomada da memória e ressignificação de histórias.

INTRODUÇÃO: Um pouco sobre a fotografia

A imobilização da imagem é tão antiga quanto a história da humanidade. Na pré-história o homem buscava uma comunicação através de símbolos, os quais registrava nas paredes das cavernas. Esses símbolos iam desde uma simples representação às relações sociais de grupos inteiros. Além dos desenhos, a pintura e a escultura também marcam esse período. A necessidade de expandir os registros simbólicos fez com que surgisse no século XIX a mecanização da imagem. Eis que a fotografia vinha para popularizar o retrato e para auxiliar na reprodução do real, sem permitir amplas interpretações do que fora registrado. Os signos fotográficos abriram os caminhos democráticos e sua expansão comercial foi universalmente veloz.

Para alimentar os desejos, a indústria precisava investir na produção de mecanismos (câmeras) que atendessem as necessidades dos consumidores. Eis que a Eastman Kodak Company fundada por George Eastman surgiu e lançou no mercado em 1888 o filme em forma de rolo. A medida que era alimentado pela vontade de registrar fatos importantes, o público exigia que aparelhos mais sofisticados fossem produzidos e, para isso, câmeras cada vez mais simplificadas e precisas eram produzidas. As inovações tecnológicas estavam ao alcance do público e mesmo assim, um importante divulgador da arte de fotografar resistia brava e poeticamente nas praças das grandes e pequenas cidades, o retratista.

A fotografia em Iaçu- Bahia

O município baiano de Iaçu possui um grande registro dessa representação cutural que é a fotografia. Querer imobilizar um instante talvez fosse apenas um ato comum para a época, comum no sentido de ter o objeto (fotografia impressa) para exibir aos familiares e amigos ou apenas guardar como recordação. O sujeito na verdade era o próprio objeto que se moldava a cena, ao fotografo e ao próprio desejo de muitas vezes querer representar. Para muitos fotógrafos, a fotografia poderia ser apenas um trabalho, uma forma de ganhar dinheiro. Para outros não era “registrar apenas o que estava ali presente mas, também, e, sobretudo, as discrepâncias entre o que pensa ver e o que está lá, mas não é visível” . O Sr. Aurelino Costa registrava o amor, a alegria, a tristeza, a dor, o novo, o velho, a música, a poesia. Na fotografia sempre cabem muitas formas.

O seu estúdio fotográfico, Foto Costa era muito movimentado e tinha um verdadeiro arsenal cenográfico e de maquiagem. O plano de fundo variava do preto às estampas em cores quentes. Camisas, vestidos, pentes, batons, pó de arroz, tudo para que o cliente “saísse bem na foto”. O que ele não sabia é que, hoje, muito do que havia fotografado, é tido como acervo representativo da memória histórica e cultural de toda uma comunidade. Cada fotografia observada apresenta segredos, olhares, sorrisos, posturas e muito do que não havia sido planejado. Simbolicamente tem um valor histórico absolutamente rico. Acredita-se que o próprio Aurelino Costa, ao ser fotógrafo, gostaria de registrar o seu trabalho, mas é possível observar que aquele que o fotografou conseguiu captar a vaidade que tanto usou para compor os cenários de suas fotografias. A camisa de mangas dobradas nos faz crer que naquele momento estivesse fazendo a ampliação das fotografias, mas a gravata, o sorriso, o relógio e a mesa de trabalho organizada revelam que ele se fez fotografar.

O seu próximo registro é da filha Lene, sua modelo preferida, apresentando a velha bicicleta e as flâmulas dos grandes times de futebol. Os colares, pulseiras, a grande saia rodada, o chapéu e o pano de fundo revelam mais da vontade de imobilizar o momento que para ele próprio seria magistral, afinal, era sua filha querida que mais tarde se tornaria uma belíssima mulher, vencedora de grandes concursos de beleza.

Aqui mais um registro do Sr. Aurelino Costa. A fotografia é datada de 27 de julho de 1958. O casal Manoel Francisco e Adeláide posam para registrar o seu amor. Transmitem uma sensação de felicidade. Adeláide com o sorriso sereno, seu vestido alinhado, sapatilhas e belíssimos brincos junto ao seu amado Manoel com bigode de época, a la Clarck Gable, alinhando seu corpo na velha bicicleta enfeitada com as flâmulas do Flamengo e do Fluminense rivais no campeonato carioca que neste ano respectivamente ficaram em segundo e quarto lugar. Parece ser apenas um registro da oficialização da felicidade do casal, mas além disso “é constitutiva de uma realidade contemporânea e, nesse sentido, é, de certo modo, objeto e também sujeito.”

Observando as senhoras com os seus vestidos alinhados e a doce menina exibindo simpatia, sentadas à praça da pacata Iaçu, jamais poderia imaginar que naquele momento o município sofria as ações do Golpe Militar. A fotografia é datada de 14 de abril de 1964 e tem a seguinte dedicatória: Zélia, aqui estão três caras, cada qual mais linda. Tiramos no jardim, no domingo da Revolução*. Eu, Lôreta Silva e Lucy da Hora. Rita.

Outros fotógrafos, retratistas e lambe-lambes deixaram um riquíssimo acervo para que se pudesse contemplar.

A poética fotografia abaixo, retrata o fascínio do fotógrafo pelo belo, nada que um olhar desatento possa ver. A corrente que se forma entre os seis personagens, sim, seis personagens, revela nitidamente olhares atentos para a câmera e a articulação dos corpos a fim de apresentar o melhor de si. Talvez se
possa pensar que é um cenário comum à vida no interior, a velha casa sem reboco, a cerquinha de madeira, pessoas e animais para servi-los, mas o que se vê é que diante da possibilidade do olhar a interação entre cenário e objeto ( pessoas e animais) revela “o invisível que se torna visível na própria evidência visual” .

O futebol é mesmo uma arte que encanta a todos. Quem observa os jovens rapazes do Flamengo Sport Club exibindo corpos atléticos e fazendo pose de grandes jogadores, que na verdade eram, se esquece de observar mais atentamente a cena e perceber a jovem porta bandeira. Eis que Domitília se mostra serena e elegante carregando a bandeira do grande time da cidade. Seu vestido de cetim, o chapéu enfeitado, os sapatos alinhados, os grandes brincos, pulseiras e a faixa sobreposta ao corpo compõem o figurino. O pano de fundo denuncia o “arranjo” da cena. Quando tudo era montado para parecer um momento descontraído do time, talvez antes de um jogo importante, se percebe, na verdade, que não passava de uma representação regada a estética e as poses artísticas que serviriam para eternizar o time através da fotografia.

As fotos de família ao que tudo indicam são documentos a serem eternizados. A fotografia da família Neves datada de 06 de novembro de 1929 é repleta de elementos simbólicos e reais. Ao analisá-la se percebe várias gerações reunidas e é possível eleger os seus principais representantes. A matriarca que abraça cuidadosamente a cintura da criança e o patriarca vestido talvez com o seu melhor terno. Este, por sua vez, segura um postal ou fotografia que parece representar alguém que está ausente. Para Barthes, mesmo “resplandecente a fotografia descarna o rosto, manifesta sua essência genética”
Alguns olhares envergonhados, mas outros parecem ostentar uma posição mais aristocrática. Os distintivos na lapela parecem reafirmar o que fora dito.

A devoção do povo registrada nessa belíssima imagem. O grupo de romeiros que saiu de Iaçu no dia 02 de fevereiro de 1964 com destino ao município de Milagres tinha a fé e a devoção como fonte de força e inspiração. A fotografia revela olhares enigmáticos, distantes, virtuosos, temerosos, curiosos, felizes. Ao que tudo indica era um grupo de familiares e amigos, crianças, jovens, adultos e idosos que se reuniu na pequena caminhonete, popularmente chamada de pau-de-arara, vestidos com as suas melhores roupas, rumo ao objeto da devoção.

“A fotografia é polissêmica, ou seja, permite várias interpretações. Apesar de seu potencial em captar os múltiplos planos da realidade visível, inclusive alguns mais “abstratos”, a fotografia isolada, por mais rica em aspectos visuais e simbólicos que possua, dificilmente consegue propor uma explicação ou uma interpretação por si mesma ( Fotografia e Subjetividade (2a parte) em 26 de novembro de 2009)”.

O que se vê é que a riqueza de elementos visuais ultrapassa o simples olhar. Os acervos fotográficos têm muito a dizer sobre a história das comunidades e das pessoas. A cada nova geração essas histórias são reescritas porque os individuos ficam livres dos suportes tradicionais, mas ainda carregam uma referencia identitária baseada na origem que não é e jamais será singular.

A memória entendida como elemento fundamental na formação da identidade cultural individual e coletiva, na instituição de tradições e no registro de experiências significativas, deve ser valorizada e preservada. Preservá-la não significa fixá-la no passado e quebrar o seu desenvolvimento, mas sim reestruturar os alicerces, fortalecendo-os a fim de não perder a essência.

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Artigo de Deborah Dias

(Trabalho de Conclusão do Curso de Pós-graduação  lato  sensu em ESTUDOS CULTURAIS, HISTÓRIA E LINGUAGENS como requisito para obtenção do título de Especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, Centro Universitário Jorge Amado. Salvador, 2011).

Especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens
Licenciada em Ciências Biológicas
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